Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

#2.3 - referendo, precisa-se

                A verdade é que o tema de hoje é um que não se verifica em crónicas escritas. É necessário um certo nível de interacção humana que não alcanço nesta condições. Tenho de vos cheirar o hálito, de vos admirar pontos negros ou até perceber se são fãs de desodorizante ou não, para conseguir resolver isto. Mas a verdade é que todos já passamos por esta dúvida na nossa vida. Ao cumprimentar, quantos beijinhos são afinal? Um ou dois?

            Há uns tempos havia um anúncio da GALP em que alegres consumidores de gasolina saíam do seu carro, no dito posto de gasolina, e punham dois dedos na testa. “Quem tem dois dedos de testa, atesta na GALP”. Se o slogan não era este, deveria ter sido porque até está engraçado. Olhar para aquele anúncio deu-me uma ideia. Da próxima vez que cumprimentar uma mulher, ao aproximar-me, vou colocar dois dedos na testa deixando claro que “dou dois”, porque eu, Guilherme Fonseca dou dois beijos ao cumprimentar mulheres. A ideia dos dedos na testa é má, pronto, mas já é tipo de progresso.
Primeiro é bastante obvio que entre homens este problema não se levanta. Estendemos a mão e um aperto chega, mas mesmo com estas facilidades dentro do género, há quem não entenda o processo. Todos já apertamos a mão a indivíduos que apenas nos estendem os dedos. Não apertam, não fazem força, não nos cumprimentam no verdadeiro sentido da coisa. Apenas colocam os seus dedos no interior dos nossos, num esforço mortiço e inútil, como se estivessem a perder toda e qualquer vida naquele segundo. Cumprimentar alguém é suposto ser algo entusiasta, alegre, fraterno, amigável. Apertem-me os dedos com um comando do exército aperta o gatilho da sua G3, se faz favor! Chama-se “aperto de mão”, não é “esfregar as minhas falanges na palma da mão deste senhor, enquanto desmaio”.
Mas com mulheres a coisa é ligeiramente diferente e mais problemática. Não sei em que ponto da história da humanidade tivemos de interagir fisicamente para podermos iniciar conversas ou simplesmente reconhecer a presença de alguém num local. Quando é que as palavras deixaram de chegar? Quem foi o primeiro que pensou “Epá, bom dia não chega, preciso de besuntar a bochecha desta mulher com saliva para ela perceber que estou aqui e que vou tocar palavras com ela num futuro imediato!” Por incrível que pareça, a investida deste homem resultou, mas como se não bastasse, a seguir vieram as preferências. “Eu daquela gosto, dei-lhe dois, mas aquela já é uma vaca insuportável que usa cuecas de homem, já só leva um.” É este o sistema métrico? A quem gostamos, damos dois e de quem nutrimos menos amizade, apenas um? A distância a que as tias dão os beijos da cara, é por causa das plásticas? Isto ultrapassa-me.
No fundo, o que quero alcançar com esta divagação é a morte do momento mais desconfortável que existe em encontros de rua, festas ou jantares. Ao cumprimentar uma mulher, esticamos o pescoço para dar um beijinho e, ao sermos correspondidos, fazemos o resto do movimento para dar um segundo. Entretanto já a pessoa em questão está de volta dos canapés e nós ficamos a fazer figura de parvos, parados no ar, a admirar a tubagem no tecto.
Simples. É um ou dois? Podemos tratar disso agora, ou tem algo mais importante para fazer? Eu acho que isto era de se resolver com urgência porque acabava com bastantes problemas de interacção e de inter pessoalidade. Andamos a dar diplomas a estudantes e dinheiro a ex-reclusos quando devíamos estar a explicar como nos cumprimentar. Até se acabavam com bastantes incidentes diplomáticos. O Sadam Hussein dava sempre três beijinhos, portanto tirem as vossas conclusões.
O meu voto: dois beijinhos. Como extra, talvez mesmo só uma pancadinha nas costas, mas fica-se por ai.
 
      
            Farto de fazer cara de parvo, de pescoço esticado,
            Guilherme Fonseca
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publicado por Guilherme Fonseca às 00:04
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2 comentários:
De tracey a 18 de Setembro de 2008 às 18:17
e os franceses??? hein?? irritam-me sempre porque dou dois beijinhos, afasto-me, e de repente debruçam-se sobre mim de novo. processo. aparece outro francês, lanço-me para o terceiro beijo, e deixam-me a cabeça suspensa. baaah


De Guilherme Fonseca a 18 de Setembro de 2008 às 18:28
Sim, claro! Este primeiro referendo seria a nível nacional...

... depois mandavam-se os resultados às Nações Unidas e eles que fizessem seguir o referendo a todos os países da Europa. =P

Eu levo esta questão muito a sério, hein?!

bjinh,
gui


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