Quinta-feira, 25 de Setembro de 2008

#2.4 - santa deslocação

                Cada dia do calendário serve para um santo e consequentemente para uma causa. Cada santo tem a sua causa e mesmo aqueles que se armaram em Socialistas, foi-lhes apontada uma à força. O dia da Árvore, o dia dos Namorados, o dia da Objecção de Consciência e, se olharem com atenção para o dia 31 de Agosto, vão notar que é o maravilhoso, orgulhoso e irrequieto dia mundial do Orgasmo. Há uns dias atrás foi dia 22 de Setembro, o dia Europeu sem Carros, apadrinhado pelo santo Al Gore.

            Apesar de ser uma criação actual, eu percebo a necessidade deste dia. Se pensarmos na poluição e nos problemas de congestão no IC19, é fácil perceber que era necessário um dia que mostrasse aos portugueses que podem deixar o carro em casa. É uma iniciativa boa e que merece existir. Mas para isso tem de ser bem feita. A maioria dos portugueses não sabe o que é um calendário, muito menos tem afinidade com o conceito “data”. A final da Liga dos Campeões, por exemplo, é decora pelos homens através da posição da lua, nunca pelo calendário. Datas de aniversário, de casamento, de natal, dias de Portugal, ou até mesmo as férias, são cumpridos por instinto, por estalada da respectiva cara-metade ou pela audição de fogo de artifício. O dia Europeu sem carros tem de ser bem feito. Eu não quero descobrir que é dia Europeu sem Carros, dentro do dito, numa fila de trânsito completamente parada, no meio da 24 de Julho.

            Como mencionei, esta iniciativa é recente, mas está prestes a morrer. Faz sentido consciencializar as pessoas do dia Europeu sem Carros, por todos os bons valores de saúde e afins que imprime, mas a mensagem perde força quando quase todos os outros dias do ano são dias Europeus sem dinheiro para a gasolina. A acção de deixar o carro em casa e ir a pé ou de bicicleta está a funcionar não tanto pela iniciativa do santo Al Gore, mas mais pela iniciativa da santa OPEP.

            Os portugueses precisam do carro porque não fazem exercício físico. Bater na mulher não conta, porque ela vai ficar em melhores condições físicas depois da pancadaria, do que o homem antes, a ingerir o álcool. Precisamos de levantar o rabo da cadeira, do assento reclinável e aquecido, aprender a olhar à nossa volta e deixar o conforto do nosso carro. Sem sequer darmos contas, fomos aos poucos sendo avisados de que devíamos deixar o carro, pelos próprios criminosos e delinquentes. Pensem, que é o carjacking senão marketing ao dia Europeu sem Carros?

            As alternativas ao carro são inúmeras, variadas e sempre mais divertidas do que estar parado no trânsito, a tirar macacos do nariz. Apanhem o metro em hora de ponta e saibam o que é ter relações sexuais vestidos. Apanhem o autocarro e treinem os 100 metros ao fugir do pica. Apanhem o eléctrico e roubem umas carteiras a turistas. Façam carpooling e ponham a música aos berros, ainda passam por gangue. Ou então vão a pé, e cumpram o hábito bem português de atravessar as estradas sempre com a luz dos peões vermelha. Com sorte, levam uma pancada numa anca que vos põe directamente no emprego.

 

Com vontade de comprar uns patins,

Guilherme Fonseca

 

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publicado por Guilherme Fonseca às 01:37
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