Quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

#2.6 - a culpa é tua!

            Isto aconteceu-me recentemente. Estava no trânsito a fazer a coisa que as pessoas normalmente fazem quando estão dentro do carro, paradas, atrasadas para alguma coisa e aflitas para ir à casa de banho, que é nada. “Nada” acompanhado de música repetitiva, vinda da rádio. Foi nesse momento que olhei pelo espelho retrovisor e nasceu todo um novo mundo para mim. No carro de trás estava um casal novo a discutir.

            Quando digo que se “abriu todo um novo mundo para mim” não é porque nunca tenha discutido com uma namorada, é algo normal numa relação, mas ver um casal a discutir é completamente diferente de ser um membro de um casal a discutir. Quando somos nós não nos interessa se estamos no super mercado, num hospital ou no funeral da nossa mãe. Estamos embrenhados naquilo que se está a passar e se houver público, tanto melhor. Podem sempre ser puxados para a cena com um simples “vocês estão a ouvir isto?!” e servir como testemunhas em casos litigiosos de divórcio. Ou mesmo homicídio.

            Mas quando são outros a discutir, não estamos por ninguém. Não temos partido, filiação ou cartão de sócio. Podemos começar a divagar, a supor, a imaginar o que foi que um fez ao outro mas de veracidade isso terá tanta como os depoimentos do caso “Casa Pia”. Aquilo que pude fazer nesse dia no trânsito foi assistir. Ouvir não conseguia, devido à distância, mas a linguagem corporal disse tudo por eles.

             Existem várias fases numa discussão de namorados/casados, mas o ponto de partida é regra geral dado pela mulher, porque os homens nasceram com uma aversão a discussões que não são de futebol. A respectiva desloca-se até ele e dispara tudo o que lhe vem à cabeça. O homem aqui apenas responde com o ocasional encolher de ombros, sempre em silêncio, a ouvir. A mulher vai julgar que está a ser ignorada pelo homem, o que a irrita ainda mais, mas na verdade o que ele está a fazer é tentar perceber para onde é que todos aqueles insultos estão a remeter. Passa todo o seu dia, a sua semana, a sua vida a pente fino, tentando descobrir o que fez de errado. Esta primeira fase dá pelo nome de “entrada a pé juntos”.

            Numa segunda fase da discussão a mulher desiste de atacar e passa à defensiva. A transição para esta fase normalmente é dada pela fala “Então? Não dizes nada?”, de mão na anca. O homem nesta altura tem de responder. Continuar em silêncio aqui é assumir a culpa e ele não quer isso. Lentamente, tendo extra cuidado com as palavras, tenta resolver o problema. (É de notar o esforço hercúlio de alguns homens ao responder nesta fase porque metade deles ainda não percebeu o porquê da discussão.) Durante toda a contra-argumentação do homem a mulher assume uma postura tipo. Apesar de se esforçar para não reagir, como viu o seu homem fazer segundos antes, não consegue deixar de tremer/contorcer a cada final de frase dele. Como se cada tremelique dissesse “eu não acredito que ele acabou de dizer esta barbaridade, o grande sacana”. O homem começa a sentir-se confortável com o seu monólogo, com o silêncio dela e vai, inevitavelmente, dizer um disparate. Isto é certo. Ou menciona algo que ela fez no passado (“Tu também não podes falar”) ou fala de alguém do universo em comum de forma errada (“Pois, é como as tuas amigas lá do emprego”). Esta segunda fase, nomeada de “deboche” acaba neste momento, em que se passa para a terceira e última fase.

            Neste momento a mulher resolve ir embora, mas não sem antes deixar um conjunto de poucas palavras que dará a discussão por terminada definitivamente. A sua frase de saída por ter vários caminhos. Desde “Vou sair”, que não ataca mas deixa cicatriz, até a um “eu sabia que isto ia acontecer”, que metaforicamente falando, equivale a um exame rectal no homem. A discussão dá-se por terminada. Ou este casal não se volta a ver ou passam para a fase extra de uma discussão.

            A fase extra, que nem sempre ocorre mas vale o esforço, envolve muito pouca roupa, gemidos e muito suor. É um final inesperado para um tal confronto mas alguns casais quase que só discutem para chegar a esta fase. Dá pelo nome de “descarga”. Muitos dizem mesmo que os melhores momentos amorosos que tiveram nas suas vidas conjugais foram depois de partir pratos e de se insultarem. A única coisa que posso desejar é que o casal atrás de mim na fila de trânsito tenha acabado a discussão com extra. Melhor só se ainda dentro do carro.

             

 

            Pronto a discutir,    

            Guilherme Fonseca

 

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publicado por Guilherme Fonseca às 06:05
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