Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008

#2.8 - mas de certeza

             Não sou fã de documentários. Acho que se quero ouvir uma história prefiro que me digam num tom de “Ouve lá isto” ao invés de ma contarem, pela própria boca, em tom de “Isto aconteceu a um amigo meu”. Quando alguém nos descreve alguma coisa tem sempre uma filtragem. Sejam interesses ou dinheiro, acabamos todos a ler algo parecido com os depoimentos do Caso “Casa Pia”. Kiarostami, um realizador Iraniano, bem tentou na sua obra encontrar o ponto entre a realidade e a ficção, mas falhou redondamente. Não há barreira. Todo e qualquer documentário está condicionado por um ponto de vista, por uma plasticidade e estrutura que enunciam uma premissa. Onde estive hoje durante a tarde? No Doc Lisboa.

            Temos de tentar perceber aquilo que não gostamos e foi isso que também fui fazer ao Doc Lisboa. Explorar o mundo dos documentários, conhecê-lo, afirmar que não gosto dele mas com razão. A piada de me apanharem lá é que só lá meto os pés quando um documentário me atrai na sua história, naquilo de que trata. O que me chamou à atenção e me levou ao território do inimigo chama-se Floating Dust. É filmado na China e tem este belo parágrafo como sinopse: “(…)Um grupo de desempregados reúne-se diariamente para discutir estratégias de jogo, probabilidades de vencer a lotaria, fórmulas matemáticas que desvendem os segredos da sorte e códigos escondidos na série televisiva Teletubbies.” Foi com essa mesma vontade de ver o documentário que eu fiquei e foi com uma reflexão para hoje com que sai.

            O primeiro pensamento que nos ocorre quando pensamos em desempregados que vêem nos Teletubbies chaves para descodificar o resultado da lotaria é droga. Muita e forte droga. Mas, fora os arrumadores de carros, não podemos ser tão rápidos a julgar as pessoas. A verdade é que a obsessão pelo jogo, a fortíssima tentativa de racionalizar o “jogo” e o caminho para vencer estão em todo o lado. Menos na cabeça do Carlos Queiroz.

            Não achamos possível que nos caia uma poia de pássaro na camisola, mas isso acontece. Não achamos possível a nossa cara metade chegar a casa exactamente quando estamos por cima da empregada no quarto, mas isso acontece. No entanto, temos milhões de hipóteses para uma de ganhar o Euromilhões e gastamos ordenados inteiros em chaves de 5 números e duas estrelas. A relação do ser humano com o jogo é provavelmente a mais perigosa de todas porque está sempre ligada a dinheiro e, ainda mais importante, torna-nos optimistas do fundo do coração. O poder do conceito “hipótese” é dar-nos fôlego, coragem e uma enorme vontade de tirar a carteira do bolso.

            Quantas vezes não fizeram estas contas de cabeça. Param numa rua e estacionam. Fecham o carro e olham para o Parquímetro. “Não, não vou dar dois euros a estes gajos”. Começam a formular hipóteses. “Nesta rua nem costumam passar”. Probabilidades. “Eu nem vou demorar. Eles já devem ter passado.” Arriscam e vão embora. Não estou a dizer que todos nós vamos acabar a ver nos Teletubbies a respostas desta semana para a Lotaria, mas temos de reconhecer que o “jogo” está dentro de nós. E contra os gajos da EMEL.

            Existam superstições antes dos Derbys, manías antes de Europeus de Futebol ou rituais antes de jogos de Sueca, estamos sempre obcecados em ganhar. Dobrar. Ficar por cima. Chegar primeiro. Ter melhor. Se conseguirmos encontrar uma resposta para aquilo que não vemos, se conseguirmos encontrar uma chave para aquilo que não controlamos, acho que até nos Teletubbies vamos tentar encontrar. Não a encontrei neste documentário. Encontrei uma interpretação apologista de nos dedicarmos ao jogo num sentido recreativo e nunca num sentido lucrativo. No entanto, se alguém descobrir a chave para “ganhar” que me diga, se faz favor. Estou farto de dar dinheiro aos meus amigos em jogos de Poker.     

           

            Olhando fixamente para Laa Laa, Tinky Winky, Dipsy e Po,

            Guilherme Fonseca

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publicado por Guilherme Fonseca às 05:25
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