Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

#2.11 - socorro

            Já nos passou pela cabeça esta pergunta. Regra geral pensamos nisso quando já “estamos” de facto, portanto esta semana quero responder a isto: porque ficamos bêbados? Pode ser que este texto sirva para se profissionalizarem as fotografias e os vídeos embaraçosos característicos do todo e qualquer casamento, incluindo o nosso.

            Tudo começa com o acto de beber em si. Um copo, dois copos, três copos e depois mais outra garrafa para a mesa do canto. Maioria pega no dito cujo em actos sociais, tenha a conotação que esta frase tiver. Adolescentes a tentarem ser mais adultos do que os pêlos no peito deixam ser, adultos a tentarem ser mais sociáveis do que o stress do dia a dia deixam ser ou idosos que tentam ser mais normais do que os médicos deixam ser. O problema aqui reside apenas nos “bebedores” pelas razões erradas. Seja por estarem a tentar fugir da realidade em que se inserem, seja por estarem a tentar entrar num mundo que não controlam, todos estes exemplos ou tem problemas na sua vida ou são do Benfica. 

Normalmente o “beber” acompanha uma refeição, porque desidratados procuramos o hidratante que nos equilibra as funções corporais. Era bom que isto fosse verdade sempre, não era? Mas como agora diria o Borat, “NOT”! Beber actualmente tornou-se quase uma obrigação ocasional. Como uma cunha pessoal de inserção social. Estar num jantar sem beber um vinho tinto ou estar no bairro alto sem copo de plástico na mão, são quase sacrilégios à santa igreja da alcoolémia. Aqui uma piada seguida de uma “boca” resolve o caso e nenhum membro superior dignificado de polegar oponível fica por preencher.

Beber tem vários níveis que vou simplificar para três. O primeiro é a total e enfadonha “normalidade”. Seja água, Ice Tea ou um copo de Bailey’s à sobremesa, bebemos e nada nos acontece. Mantemos as lembranças de tudo o que fizemos e poupamos a nossa vida a gravidezes indesejadas com alunas de secundário. O segundo nível dá pelo nome de “alegria”. O indivíduo bebe o suficiente para se sentir alterado sem nunca perder o controlo. “Solta-se”, como gosta de dizer às amigas de copa D. Sente que pode dizer mais aquele insulto que não conseguia há três copos atrás e até pode acabar a cantar êxitos de música popular portuguesa em Karaoke. “Dunas” costuma ser o hino. Esta é a comum linha de água cujos sintomas avisam o visado de que está perto de ultrapassar a barreira para a última fase, a “bebedeira”.

A “bebedeira” é perigosa porque assim que lá chegamos dizemos o nome desta crónica como um católico diz “amén” na missa de domingo. “Socorro, socorro, socorro”. Estar bêbado não é agradável, que se desenganem os Taxistas da capital. Estar bêbado é perder o controlo total e completo de qualquer acção do nosso corpo. Não só saímos humilhados sexualmente no final da noite como provavelmente acabamos por fazer coisas estúpidas, como conduzir ou alistarmo-nos no Partido Comunista Português. Perder o controlo não é ganhar liberdade. Perder o controlo é, pasmem-se, apenas e simplesmente... perder o controlo. Se para alguém “beber” é sinónimo de “melhoria de alguma coisa” é porque algum psicólogo e/ou cela prisional têm uma vaga que não deveria ter.

Em nada estar “bêbado” é estar livre ou feliz. O álcool não faz nada senão mascarar algo que não gostamos de fitar olhos nos olhos. É um escape como o quarto ao fundo do corredor ou alguns murros na almofada. Se o “beber” for por prazer, num sentido puramente epicurista de viver, então o controlo e o bom senso fazem parte da viagem. Porque o “controlo” não é algo necessariamente mau, amigos. Ajuda-nos a conhecer limites, a conhecer paredes até onde pudemos ir dar umas cabeçadas. Quando pegarem num copo façam-no por vocês. Não o façam por uma mulher que vos traiu, por um patrão que vos matou um fim-de-semana ou uma Ministra que vos obriga a serem avaliados. Façam-no por vocês e mais ninguém. Se o fizerem assim, então… à vossa. (Nota do autor: Aniversários e Passagens de Ano obviamente não são abrangidas por esta crónica. Obviamente.)

 

Claramente a dar numa de falso moralista,

Guilherme Fonseca

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publicado por Guilherme Fonseca às 04:51
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1 comentário:
De Anónimo a 18 de Novembro de 2008 às 19:45
Digo desde já que ou nunca foste ao Karaoke ou andas muito desactualizado, "Dunas" nunca foi o hino no Karaoke. As Doce com o - "Amanhã de manhã " ou o famoso "I will survive"...isso sim!!!

bjnhu
ps: acho k como é óbvio, com uma crónica de bebedeira e karaoke sabes quem sou :P


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