Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

#2.14 - caixotes

                Quem nos mandou ter tanta porcaria em casa? No quarto temos centenas de cd’s, livros, revistas e psichés que, com sorte e se formos octogenários, são figurinhas religiosas que mudam de cor conforme a meteorologia. Na sala mais cd’s, dvd’s, jornais, revistas, copos, vasos, velas, relógios, candeeiros, cinzeiros, fotografias, televisões, sofás e pequenas fortunas em trocos no fundo do sofá. Na cozinha milhares de pratos, tachos e pequenas e pontiagudas coisas de metal das quais algumas só nos lembramos quando já se enfiaram na carne da nossa perna inadvertidamente. Na casa de banho, uma panóplia inacabável de pequenos objectos húmidos e facilmente abertos que nos vão sujar tudo e todos. Porque temos tanta porcaria em casa? Para quando mudarmos de casa termos razão para construir caixotes.

            Só pode ser esta a razão. A criança que existem dentro de nós compra milhares de objectos inúteis e pouco ergonómicos e depois anseia por uma mudança de casa apenas e só para puder construir caixotes. É a nossa nostalgia das aulas de trabalhos manuais. Quando os vemos, mortiços, bidimensionais, espalmados, percebemos que tudo está errado. Alguém devia abri-lo e, munido de fita adesiva, fazer dele um puzzle completo, uma caixa bonita e vazia, um pequeno exemplo de sucesso. Com sorte ainda acabamos uma boa sessão de “construção de caixotes” com papel de bolinhas. Um verdadeiro elixir relaxante que faz do mais hooligan dos homens um apaixonado por pores-do-sol e poesia francesa, estalido a estalido.
            Uma mudança de casa é sempre vista como algo chato, cansativo e moroso, o que não podia estar mais errado. Não andamos anos e anos a comprar “coisas” para depois nos queixarmos, é inadmissível. E mesmo todas aquelas prendas de natal que ainda não percebemos para que servem têm de ser levados. Não pode ficar nada para trás. Se estiver a mudar de casa veja-se como um General em tempo de guerra. Organize as tropas por locais, não deixe nada para trás, grite coisas sem sentido para os outros, embebede-se até não ter tempo para nada e acabe isto tudo com uma bela invasão de um novo território.
            Há pequenos jogos que se podem fazer durante uma mudança de casa. Aproveite aquilo que é característico desta actividade e use-as em seu proveito. - O pó suja tudo, mas porque tossir como se tivesse pedaços de pulmão a mais? Faça alegres e explícitos desenhos ordinários com a ponta do indicador nos móveis sujos, fotografe e venda como “arte contemporânea” na Internet. Fique rico! - Tem de preencher milhares de caixotes com livros e outros objectos? Não se deixe desmotivar. Pense que outros homens, chamados “das mudanças”, vão transportá-los numa carrinha para a sua nova casa. Porque não grava sons de bebés a chorar e coloca gravadores aleatórios dentro de alguns caixotes selectos? Ria-se com as reacções! - Irritar-se quando entala os seus dedos em móveis pesados que estavam bem quietos? Porque não grava os palavrões que diz e lança um cd de comédia? Seja uma estrela! - E os caixotes são grandes demais e pesados. Para quê descer dezenas de andares com eles ao colo e acabar com dores de costas? Pegue neles, vá até à varanda e atire-os pela janela. Está a jogar Tetris! Se tem de mudar de casa, faça-o de maneira criativa e imaginativa.
            E como se montar e encher caixotes não fosse já divertido e lúdico o suficiente, há algo ainda melhor no futuro imediato de quem muda de residência. Arrumar tudo. Depois de passar dias a empurrar móveis, provavelmente sempre para o mesmo lugar repetidamente se tiver um cônjuge que mande mais que você, tem milhares de objectos para colocar em novos “sítios”. Substitua números por objectos e veja este último passo como uma espécie de su-do-ku gigante e sem solução. Quando estiver tudo num novo local faça como todo o ser humano normal. Arrependa-se de ter comprado essa nova casa, pegue nos classificados e comece tudo de novo.
 
            Empunhando sorridente papel de bolinhas,
            Guilherme Fonseca
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publicado por Guilherme Fonseca às 12:29
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