Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

#2.16 - é para embrulhar

                Porque isto não é só uma crónica humorística, é também um espaço lúdico que versa temas variados como sociologia, filosofia ou parvoíce, esta semana vou fazer um pouco de serviço público. Portugal precisa, logo eu tento dar. Este é o “Guia para as Compras de Natal do Cidadão Comum”. Um guia passo a passo para que você saiba o que anda à procura de centro comercial em centro comercial.

            Primeiro, saiba que tem mais que tempo ainda. Falta uma semana para o Natal? Três dias? Uma hora? Não entre em pânico. A entrega de prendas é um acto mais simbólico que calendarizado. E há sempre bombas de gasolina abertas. Em caso extremo vá à Repsol e ofereça um saco de gelo, porque oferecer gelo no Inverno é “ensinar a viver dois passos à frente, precavido e organizado”. E de copo preparado. Na eventualidade de não conseguir arranjar mesmo nada, esta é a melhor desculpa. “Opa, ainda não tenho a tua prenda. Mandei vir de fora e ainda não chegou”. Esta é uma excelente desculpa porque mesmo que depois ofereça um Kit Kat, vai parecer mais caro e exótico do que realmente é.
            Bem, se eu vir mais um anúncio de Natal a gozar com meias declaro aberta a guerra a todos os criativos de publicidade. Isso ou Reis Magos a cantar preços de telemóveis. As meias são um clássico na compra de prendas de Natal que deve ser respeitado. São o Elvis, o Eusébio ou o Marlon Brando das prendas de Natal. Não se trata um par de meias dessa maneira, com tal desprezo e falta de consideração. Historicamente, o par de meias começou a ser opção dos Portugueses nas escolhas de Natal numa altura específica de revolução e indecisão. Na década de 70 muito se lutava nos bastidores de Portugal contra a Ditadura e contra o frio nos pés. Um par de meias era um sinal entre revolucionários de escolha para luta. De recrutamento. E de frio nos pés. Quando oferecerem meias saibam o valor histórico e cultural do que oferecem. Relembrem assim todos os agentes da PIDE que não levaram com uma na testa, recheada de sabonete.
            Em termos práticos, escolher prendas de Natal é um processo simples. E qualquer altura do seu dia será indicada para o fazer. Há muita hora de Natal dos Hospitais que não pode perder? Utilize alguns tempos mortos para começar a fazer uma lista de pessoas que vão receber prenda. Parado no trânsito, na casa de banho ou a ouvir o seu patrão dizer-lhe que “já não será preciso em Janeiro naquela empresa”, pegue numa caneta e dispare nomes. De seguida olhe para essa mesma lista e corte para metade. É um favor que faz a si mesmo e ao PIB deste país. Depois vem a parte gira, descobrir o que dar a cada um.
            Há um método militar, secreto e milenar, com anos de estudo e aperfeiçoamento, para a descoberta do que as pessoas querem receber no Natal. Observe o receptor da prenda durante algum tempo. Com calma. Depois aproxime-se dele, de forma discreta e descontraída, e pergunte-lhe directamente: “O que raio queres no Natal?”. Nunca falhou. Mesmo aqueles que não dão respostas concretas e dizem em tom jocoso “Um abraço” ou “Amor e carinho”, quando receberem exactamente o que pediram, ficaram atordoados. Pelo tom de desprezo com que responderam estavam a pedi-las. O seu trabalho está feito. E bem feito.
            Para descortinar prendas de Natal sem querer utilizar este método tem de empenhar mais do seu tempo e realmente conhecer a pessoa. Vamos usar um “Tio” fictício como exemplo. Não sabe o que dar ao seu “Tio” então comece lentamente a simplificá-lo. O tal “Tio” trabalha como Taxista. Bom presentes que se dão aqui, desde bolinhas anti-stress até armas de fogo. No entanto, ele é também alcoólico. Melhores prendas se dão, como um set de protecção de Boxe à mulher. Mas apenas quando juntar-mos estes dois traços estereotipados do “Tio” temos a prenda certa. O verdadeiro passo de escolha de prendas está exactamente aqui, em juntar tudo aquilo que o seu “Tio” é, como pessoa e indivíduo na sociedade e pensar o que ele realmente precisa. Neste exemplo é sem qualquer dúvida, um par de algemas.
            Não deixe que o stress e o ritmo frenético da quadra Natalícia o afectem, apenas porque ainda não comprou as suas prendas de Natal ou não sabe o que oferecer. Siga este guia e verá que você e toda a sua família terão um santo Natal, repleto de alegria e visitas à prisão. Prove às pessoas que mais ama que as conhece, que pensa nelas e que nunca deixou de reparar que existem, porque o Natal para além de servir para comer, serve principalmente para desculpar os aniversários que esqueceu durante ano.
 
            A precisar de ir às compras urgentemente,
            Guilherme Fonseca
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publicado por Guilherme Fonseca às 05:23
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