Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2008

#2.17 - papel de embrulho

               Toda a gente no mundo agora está a festejar alguma religião por estes dias. Os cristãos o Natal, os Judeus o Hanukkah e os Agnósticos o facto do Benfica ser campeão de Inverno. Há razões de sobra para todos poderem comer e beber sem reservas. Mas sejamos de que religião formos, há coisas em comum que a época arrasta e que temos de suportar sem muita vontade. Para além das músicas de Natal em centros comerciais.

            Primeiro, a família. Aquelas pessoas que vocês evitam o ano todo, sabem? Estão a passar pelo menos dois dias enfiados na mesma casa que eles. Todos. Até aqueles esquisitos, que vocês nem reconhecem das fotografias do casamento dos vossos avós e que vos dizem “Eu andei contigo ao colo, meu rapaz. Estás tão grande!” enquanto apertam bochechas. É explosivo mas necessário. No fundo, o Natal é uma espécie de tratamento de choque. Se sobreviverem a essas duas refeições rodeados de pessoas com o mesmo ADN que vocês, é porque merecem embebedar-se na passagem de ano.
            As mensagens de Natal são já um clássico também e acho que é das características do Natal que mais personificam uma pessoa. Se ligas para mais de metade dos teus contactos a desejar bom natal… és provavelmente o “chato” da lista das outras pessoas. És aquele que as pessoas suspiram quando vêem o nome no ecrã e que quando atendem começas a cantar o “Jingle Bells”. Se ligas só aos mais importantes… és uma pessoa desagradável. Isso de “escolher” amigos é extremamente mal-educado. Até porque não deves ter ligado para mim. Se mandas apenas sms’s… podes ser uma de duas pessoas. Ou és “sovina” - aqueles que mandam sms até dia 17, quando ainda têm mensagens grátis - ou és “otário” - aqueles que passam a manhã de dia 24 a escrever uma mensagem com piadas de há dois anos atrás e mandam para toda a gente. Exactamente o mesmo tipo de pessoas que na passagem de ano vai ligar a desejar bom ano e entope a rede toda. Por fim podes ainda ser do mesmo grupo que eu. Não dizes nada ou pões um reles texto na net a desejar Boas Festas. As pessoas vão estar a receber um milhão de mensagens de Natal, se sentirem a falta das tuas Boas Festas, é porque são teus amigos. Ou então só são teus amigos.
            Pôr as Séries de televisão e os livros em dia é completamente impossível. Não há trabalho, não há horários, não há obrigações que vão para além de rebentar o nosso colesterol com doces, portanto estamos de férias. Então seria nesta altura que aproveitaríamos para por filmes, livros e séries de TV em dia. O problema é que há sempre mais uma visita a fazer ao Colombo ou mais um doce de Natal para acrescentar açúcar na cozinha. Queremos aproveitar para por a nossa cultura em dia mas por mais que nos esforcemos não conseguimos. A única cultura que saciamos nesta altura do ano é a de “música pimba” porque mudar o canal do “Natal dos Hospitais” por um segundo que seja é sinal de apocalipse na secção octogenária da família. Sabem, aqueles que estão de manta, a resmungar com toda a gente na sala, que andaram com vocês ao colo.
            A gripe é para o Natal como o musgo para o presépio. Mesmo quando não te esforça por lá por, ele cresce sozinho. E a gripe tem ainda o privilégio de ser o presente de Natal mais dado de sempre. Não falta em nenhum Natal e um simples abraço ou cumprimento em frente à Zara faz dela um bem comercial. Mesmo quem não tem dinheiro para chocolates pode sempre tossir mesmo no meio dos olhos de alguém no metro e já lhe está a dar alguma coisa, além de perdigotos.   
            Mas o mais importante desta quadra Natalícia é a gigantesca falta de tempo e paciência para ler textos sobre o Natal. Alguns corajosos tentam escrever sobre isso mas nunca sai nada de jeito. O Natal não se percebe, vive-se. É a mesma diferença entre saber a receita de uma rabanada ou morder uma rabanada. Por mais que nos queixemos que dá trabalho, que é cansativo e que só queremos férias das férias de Natal, vamos passar o resto do ano a contar os dias para que chegue outra vez. Por isso, mordam essas rabanadas com prazer. Saboreiem o Natal. Não digam que estão a sofrer, porque quem sofre na época do Natal é o papel de embrulho.
 
 
            A desejar um saltitante e excitado Natal a todos,
Guilherme Fonseca
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publicado por Guilherme Fonseca às 00:19
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Todas as Quintas o humorista Guilherme Fonseca publica um novo texto!

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