Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

#2.23 - patinei

               Domingo de manhã gosto de jogar basket com amigos. Domingo de manhã costumo acordar cedo, vestir-me para o efeito e fazer-me à estrada até ao pavilhão alugado. Domingo de manhã gosto de fazer exercício, mesmo que me tenha de deslocar de carro para isso. Domingo de madrugada choveu. Domingo de manhã entrei numa curva rápido demais. Domingo de manhã parti a dianteira toda do carro num rail. Domingo de manhã não joguei basket com os amigos.

            Há vários tipos de acidentes de automóvel. Há aqueles acidentes perigosos que normalmente envolvem idosos em contra mão nas auto-estradas ou bêbados da passagem de ano que julgam que o carro é uma sanita andante, o tipo de acidentes que caracterizam a população portuguesa em épocas de festividade. Depois há aqueles acidentes de trânsito, vulgo “beijinhos”, em que um carro tímido tenta iniciar uma relação amorosa com outro carro despreocupado à sua frente. E há ainda um último tipo de acidentes de carro. Aqueles simples e totalmente evitáveis em que o condutor devia ser mais esperto, mais calmo e menos parvo para que nunca acontecessem. Eu incluo-me vergonhosamente neste último grupo.
            Há um monumento a todos estes tipos de indivíduos, para todos estes tipos de acidentes. Se repararem nas auto-estradas, por vezes as placas informativas não pedem para abrandar nem informam que está a chover, mostram sim uma sequência crescente de números. Esses números são o top de acidentes rodoviários em cada país europeu. É um monumento doentio e desnecessário à má condução. Ainda por cima actualizado ao minuto. Agora imaginem-se a conduzir e vêem no dito “Espanha 145, Portugal 144, Itália 140”. Não puxa pelo vosso sentimento patriótico? Conheço muitos monárquicos que rapidamente se estampariam contra o carro mais próximo apenas para saudar e fazer prevalecer a nossa grande pátria.
            Mas a parvoíce que eu cometi este domingo insere-se nos acidentes “evitáveis e parvos”. Sozinho, a sair do Eixo Norte-Sul para a Segunda Circular, numa curva que parecia uma stripper brasileira, bem molhada e apertada, o carro fugiu-me das mãos. Dançou um bocado e lá resolveu copular com um rail lateral. A esse mesmo e à sua respectiva família peço desculpa pela ocorrência. Moral da história, se é domingo de manhã e choveu, tirem sempre 20 km/h à velocidade a que já vão. Independentemente do desporto que vão praticar nesse momento.
            Depois de imitar Edward Norton no filme Fight Club e me esmurrar repetidamente a mim próprio, há que pensar no que se passou. Como um simples segundo, um simples gesto, podia levar-me desta Segunda Circular para melhor. Não quero morrer assim. Quero morrer a dormir. Mas a dormir ao volante dum Ferrari, durante um salto que direi conseguir fazer da costa da Caparica até à Madeira. Isso sim, seria morrer em estilo. Incompetente, mas com estilo.
            Se eu, enquanto indivíduo anónimo e passageiro na vossa vida, vos puder deixar alguma coisa para levarem com vocês é isto: Vejam o Telejornal da RTP, tem a meteorologia num ecrã digital. Depois é que conduzam com cuidado. Um carro é uma das armas que não servem para assaltar bancos. Como fui contra um rail podia ter ido contra uma carrinha cheia de adeptos da primeira missa da manhã. Como me fugiu um carro em que só ia eu, me podia ter fugido um carro cheio de gente minha amiga. Podem-me ignorar à vontade, esquecer estas palavras em minutos, mas este é um conselho vale 1000 euros de arranjo.
 
            A jogar “Burnout”, onde posso partir carros sem pagar,
            Guilherme Fonseca
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publicado por Guilherme Fonseca às 00:03
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1 comentário:
De Pai a 5 de Fevereiro de 2009 às 17:50
gosto do tom paternal a dizer para andarem mais devagar e não atentarem contra a virgindade dos rails nacionais...
se calhar quem devia dizer o que disseste era eu, mas já tive relações com tantos rails que deve haver por aí dois ou três rails pequeninos que são teus irmãos...
olha, azar, quem anda à chuva molha-se, só não acontece a quem não guia, e outros aforismos desnecessários e pouco reconfortantes.
deixa lá, amanhã há mais.
faz seguro...


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