Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

#2.24 - oi

            Eu acho que nós humanos conversamos desde que descobrimos que a língua não servia só para nos lavarmos. E que haviam coscuvilhices sobre outras pessoas para partilhar. E que se essas outras pessoas não estavam por perto, se podiam dizer essas mesmas coscuvilhices sem nos sentirmos mal. É o que eu acho. A maneira como partilhamos essas mesmas coscuvilhices em forma de conversa é que tem evoluído. Se há milénios dizíamos mal dos vizinhos desenhando com uma pedra na parede de uma caverna, agora temos meios mais evoluídos e maquiavélicos de o fazer. Possivelmente até com pedras à mesma.

            A primeira maneira não verbal de conversar foi a carta. Grandes mentes desenvolveram a escrita, num esforço óbvio de chegarem aos “anúncios de engates” em casas de banho públicas. As cartas serviam para dar notícias, trocar conhecimentos e até para declarações amorosas de alta classe. Nunca tanta tensão sexual tinha sido trocada com tanto período de latência. E como nenhum homem de fraque do séc.XVII gostava de demorar três semanas para saber o destino da sua ordinarice, começou-se a pensar em acelerar as coisas.
            A Internet foi a salvação. O Militar que a inventou tinha poucos segundos para avisar as chefias que ia levar com uma bomba na testa então criou este maravilhoso sistema de comunicação à distância, deixando o telefone e o telégrafo a encherem prateleiras de antiquários. Com a Internet veio o Mirc. Que bela e nova maneira de trocar engates e coscuvilhices. Primeiro arranjávamos um “nick”, uma identidade que não dissesse exactamente quem éramos mas que deixasse claro o que queríamos. “Loverboy_69”, “Adoro_tetas” ou “Queres_CU_meta” tornaram-se clássicos da nossa adolescência mas nós sabíamos que aquilo não iria durar. Salas duvidosas e repletas de indiscrição não podiam continuar a ser o nosso ponto de encontro.  
            Anos depois nasceu o msn messenger. Agora a máscara da nossa identidade caía. Um chat só para amigos e conhecidos. Os tarados que ficassem no Mirc, onde ainda devem estar. De mãos nos bolsos encostados às paredes da sala “portugalsexo”. O msn era fantástico, novo e versátil. Tínhamos foto, onde podíamos simplesmente deixar um patinho de borracha, e a hipótese de escrever uma frase poética e elucidativa do nosso estado de espírito. Muitos poetas e escritores de renome mundial rebolaram nas suas campas ao saberem que adolescentes pontuados de acne usavam citações suas para engatarem a menina de totós do 7ºC . Nada nem ninguém conseguiu parar o msn. Nem patrões cujos trabalhadores passavam os dias naquilo, nem o som irritante e repetitivo da janela cor-de-laranja piscante, onde sabemos que alguém nos disse alguma coisa nova.
            Depois veio o skype. O que é? Uma valente bofetada de voz robotizada de milhões de namorados em Erasmus com contas de telefone para pagar. Depois, o blogger. O mais parecido actualmente com uma troca de cartas, mas uma em que anónimos podem interceptar a correspondência de outros e disparar insultos gratuitos do seu canto escuro. A troca de conhecimentos e futilidades tinha agora vários meios possíveis e uma ainda maior velocidade, coitado do ignorante homem do fraque do Séc. XVII. Mas como se não bastasse, nasceu agora algo que se propõe a ser mais rápido e omnipresente que todos os seus antecessores. O Twitter.
            De nome afável e cantarolante, este pequeno e rápido sacana mudou a comunicação como nunca. Se demorávamos 7 minutos a saber a nova dúvida existencial de alguém no Paraguai, agora demoramos 2. Estejamos em casa ao pc ou durante uma consulta no Dentista. Porquê? Porque há coisas que nós não podemos ficar sem saber mais do que o tempo de morte de uma cárie.
A informação tornou-se tão rápida e multiplicada que não sabemos o que fazer com ela. Arranjamos maneiras de a acelerar ainda mais, de a facilitar ainda mais, sem sabermos bem o que temos para dizer. O que vale é que o homem das cavernas tinha vizinhos que não gostava. E tal como ele nós temos de pegar na pedra e… comunicar. Ninguém gosta de estar sozinho e abandonado no mundo real, portanto muito menos num mundo virtual. Ganhámos a habilidade de gritar mais alto através de 0’s e 1’s, portanto é bom que nos ouçam. Até mesmo aqueles gajos de casaco e chapéu que ficaram na sala “Portugalsexo”.
 
Orgulhoso da velocidade a que vocês podem ler as minhas barbaridades,
Guilherme Fonseca
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publicado por Guilherme Fonseca às 03:01
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Todas as Quintas o humorista Guilherme Fonseca publica um novo texto!

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