Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

#2.25 - poluição cor-de-rosa

           O dia 14 de Fevereiro não é de todo igual para toda a gente. O dia 13 do mesmo mês é, por exemplo, mas o dia 14 não consegue ser. Ganhou a fama de "dia dos namorados" o que arrasta consequências para todos os que se apanharem vivos nesse dia. Os solteiros fazem questão de o ignorar violentamente, de comando e cerveja na mão. Quem sabe agarrem também num terceiro item. Os casados ficam na dúvida se valerá a pena esquecerem-se da data e discutirem a “falta de atenção” também neste dia. Os que ainda não são namorados mas andam a "curtir" evitam-na, porque não querem dar a entender que estão a dar passos na direcção "errada". E os namorados propriamente ditos gostam de a aproveitar. Ao máximo. Mas sem qualquer pingo de originalidade, surpresa ou consideração por qualquer um dos outros grupos.

Um casal de namorados apaixonados é a coisa mais irritante e cansativa que se consegue fabricar com uma sessão de beijos. Falam de maneira esquisita, produzem sons de sucção difíceis de ignorar e não se cansam de falar àqueles que os rodeiam de tudo, tudo o que fazem no seu dia-a-dia em conjunto, provando que o amor além de cego é estupidamente surdo. A felicidade é agradável de se sentir mas de se ver é bastante insuportável. Toda a gente gosta de ganhar um jogo ou concurso mas é cansativo suportar os gritos de felicidade do vencedor de um. Quando são dois e gostam de se tocar em público, temos o “dia dos namorados”.
Aquilo que um casal apaixonado em público irrita é amplificado largamente nesta data sendo que andam todos, de mãos dadas ou mão no bolso das calças do parceiro, a passear pelas ruas. Uma epidemia de gente feliz e molhada de saliva que não consegue parar de se oscular e rir. Pessoas essas que não conseguem deixar passar esta data sem oferecerem uma prenda uma à outra. De férias milionárias a sms’s, todo o tipo de prendas foram trocadas este sábado, com um único objectivo. Sexo.
Se ofereceram flores ou perfumes estão a dar uma simples e directa mensagem. “Quero-te comer”. É isso que uma flor diz. É isso que um perfume diz. “Sim, pensei em ti mas deixei ao critério da senhora da loja o que escolher. Portanto eu dou o dinheiro e tu dás o…”. Se ofereceram chocolates então nem vale a pena. Nada diz mais “come-me à bruta e à dentada” que um chocolate. Há inclusive uma empresa que vos permite escrever mensagens no dito chocolate, com letras deliciosas. Para além da metáfora já de si implícita podem também dedicar chocolates à vossa cara-metade com textos engraçados como “Inteiro dás diabetes…” ou “Come isto tudo e eu deixo-te, badocha!”. Para me fazer entender neste ponto informo que comer chocolate provoca no corpo a secreção de uma mesma enzima que o sexo. Muitas vezes tento comer um Kit Kat ao lanche mas ele tem dores de cabeça.
Há ainda um tipo de presentes que me fascinam. Já devem ter reparado nuns casais que usam t-shirts e canecas com fotos da respectiva cara-metade. Por um lado há orgulho na sua escolha de parceiro, sim. Mas por outro há piroseira e informação mais que em demasia para o resto do mundo. Não quero a cara da pessoa com quem estou numa caneca ou num tapete de rato. Quero à minha frente. Aquilo que quero numa caneca ou num tapete de rato são pequenos papéis amarelos com as minhas obrigações profissionais. Se preciso de me lembrar constantemente de com quem estou tenho de parar de comer chocolate. Das t-shirts com fotos nem falo porque é a mesma coisa mas em feio e cobarde. Sim, “cobarde” porque se é isso que querem dizer ao mundo tatuem a cara da pessoa nas costas.
Quero deixar claro que não sou contra as pessoas serem felizes umas com as outras. Aprovo de todas as formas e feitios. Mesmo aquela que os Padres portugueses gostam de dizer ser "pouco natural". (Na comunicação social, nunca nas aulas de catequese). Só quero aqui condenar e ostracizar toda e qualquer falta de originalidade dos envolvidos na escolha das prendas. Demonstra pouco esforço e ainda menos dedicação. Não pela prenda mas pela pessoa que a recebe. Tudo o resto que não envolve prendas, é só chato para o resto do planeta. E para mim.
 
Tentando persuadir um Kit Kat,
Guilherme Fonseca  
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publicado por Guilherme Fonseca às 16:32
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1 comentário:
De Pai a 20 de Fevereiro de 2009 às 17:55
"Muitas vezes tento comer um Kit Kat ao lanche mas ele tem dores de cabeça. " Há muito tempo que não me ria como ri ao ler esta frase.
O texto é excelente, iconoclasta e verdadeiro :), até a referência ao barulho que faz um vencedor de concursos é acertada, mas tenho a certeza que o Woody Allen sentiu uma pontada de inveja na costela quando leu esta frase.
Obrigado :)))))


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