Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

#2.26 - Ronha

                É sem dúvida aquilo que mais admiro nos bebés. Sim, comem quando lhes apetece e só têm de gritar para isso. Sim, um par de seios faz parte dos seus brinquedos mais disponíveis. E sim, não têm de se deslocar para irem à casa de banho. Mas aquilo que mais admiro nas crianças de tenra idade é poderem dormir quando querem, como querem e quanto querem. Os sacanas é que a sabem toda.

            Quando era mais novo, no início da minha adolescência, o sábado e o domingo serviam para dormir. Era regra. Dormia quase treze horas seguidas e ainda passava mais uma hora na cama, de olhos fechados a ouvir o que se passava à minha volta. Não que a manhã de sábado da minha família fosse deveras interessante, mas sabia bem. Aquela horinha de “ronha” era o ponto alto do meu fim-de-semana. Acho que diz muito sobre nós, quando o ponto alto da nossa infância é uma hora específica na cama.
            Mais velho fui perdendo o hábito de dormir tanto. Havia desenhos animados e jogos do Super Mário para se acompanharem e o sono foi perdendo destaque. Saltava mais depressa da cama, pegava ainda mais depressa numa taça de Chocapic com leite gelado e Ana Malhoa com ele. Acho que compreendem. As prioridades começaram a ser outras e aquele velho hobby foi sendo esquecido.
Depois veio o desporto, que é em si um contra-senso engraçado. Acordamos cedo ao fim-de-semana para o fazermos e acabamos o dia a refilar que nos dói o corpo e que não dormimos o que queríamos. Publicita-se como “saudável” mas só nos tira horas de sono. Muito desporto fiz para deixar de abraçar almofadas e lençóis. Pena tenho hoje de não ter sabido trazer o “desporto” para os lençóis. Juntar o saudável ao agradável.
Na Universidade o desporto quase que morreu. E com ele toda e qualquer hora de sono. Dormir para um universitário torna-se algo tão específico e planeado como estudar. Temos horas e períodos certos em que nos dedicamos a isso. Durante o resto do tempo nem sabemos que o conseguimos fazer. Eu não dormia quase nada. Ou estava a beber. Ou a conversar. Ou a escrever. Ou a beber. E as horas de sono ficaram só como aquilo que nos queixamos ter em falta quando medimos dedicação a um trabalho entre colegas. “Só dormiste 3 horas, foi? Eu nem uma consegui dormir a acabar isto…”.
Depois da Universidade fiquei desempregado. Se há altura em que parecemos bebés é quando estamos desempregados. A nostalgia que havia em mim fez-me saborear ficar na cama a ser inútil. Foi apenas isso, a preguiça não esteve envolvida, juro. Queria voltar a dormir 13 horas por dia, a ficar uma hora na “ronha” e acordar para a Ana Malhoa. No entanto algo tinha mudado desde a minha infância. As “bases” estavam nitidamente alteradas e eu não estou a falar da minha cama.
Agora arranjei trabalho e dou graças a Deus por ter aproveitado na sua totalidade o meu desemprego. Dormi, dormi e dormi. E agora apenas sei disso como miragem. Uma recordação vaga e saborosa que guardo no fundo do meu coração. Já não trato a cama por tu. Já não temos a intimidade de outrora. É sempre distante e esquisito vê-la num ápice e já não termos conversa. A minha cama é agora para mim como uma ex-namorada e isso dói.
Mas se há coisa que toda esta epopeia dos lençóis me tem ensinado é a aproveitar o meu tempo. Desempregado, os minutos eram míseros foras-de-jogo. Empregado, os minutos são sempre o período de descontos da equipa que está a perder. Agora sei escolher e filtrar aquilo que faço com as horas que tenho. Nem que seja a perceber o que mudou, em pormenor, na Ana Malhoa.
 
            De almofada e Chocapic na mão,
            Guilherme Fonseca
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publicado por Guilherme Fonseca às 02:20
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2 comentários:
De pai a 27 de Fevereiro de 2009 às 17:58
Acabei de ler a crónica, levantei-me, atirei com os óculos e esparramei-me na cama a olhar para o tecto.
Não, não precisa de ser pintado, está bom.
E adorei aquela meia hora, vá 45 mns que estive rigrosamente sem fazer nada.
Pior, sem pensar em nada.
Ouvi o cão que ladrava a milhas de distância, o rapaz do andar de baixo que chega da escola e atira com a mochila, o autocarro lá bem ao longe....
Não adormeci, apenas constatei que tens razão.
Obrigado :)


De beatriz a 20 de Outubro de 2010 às 02:37
bons tempos em que eu dormia 13 horas (e 15 às vezes). Quando estava desempregada via filmes nos intervalos de dormir


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