Quinta-feira, 12 de Março de 2009

#2.28 - auguri

           Estamos a chegar a uma parte específica do ano no que toca a cantar e soprar velas. Façam as contas e vejam quantas pessoas conhecem que fazem anos em Abril e Maio. Já está? É de facto uma quantidade anormal. Agora contem de Maio nove meses para trás. Certo, o Verão. Calor, suor, praia e pouca roupa. Percebe-se assim que os nossos pais eram tão desenvergonhados como nós. O resultado? Centenas de milhares de jantares de aniversário concentrados em apenas dois meses do ano.

           As primeiras festas que protagonizamos na nossa vida são menos que uma recordação nebulosa. Só são uma memória vivida e dolorosa para todas as outras pessoas que lá estiveram. Por mais que as mulheres se esforcem, um bebé será sempre um bebé. Passar uma tarde a olhar para uma mãe babada rodeada por dezenas de mulheres alteradas não entra na minha ideia de entretenimento. Irónico é não nos lembrarmos destes, os nossos melhores aniversários. No fundo são uma tarde num verdadeiro harém de atenção feminina redobrada. E ainda por cima é a única época da nossa vida em que uma erecção é motivo de gargalhada e não de assédio sexual.

           Depois crescem-nos dentes, deixamos de usar fraldas e as mães já não querem saber de nós. Fazemos amigos na escola e é com esses que queremos estar. As festas da nossa infância tinham dois tempos. A tarde, em que jogávamos à apanhada ou à bola com os rapazes e a noite, em que jogávamos ao bate o pé e à garrafa com as raparigas. Em ambas as actividades queríamos os pais bem longe e não sabíamos nada do que estávamos a fazer. O importante eram sempre as gomas, o bolo e conseguir contacto físico com outro ser humano. Nem que fosse no futebol.

           Anos mais tarde somos o chamado adolescente. Descobre-se o álcool e faz-se dele o principal convidado da nossa festa. À semelhança do bebé anos antes estes acabam por passar o dia de aniversário a defecarem-se ou a vomitarem-se durante horas, com um grupo vasto de pessoas a dar atenção e a rirem. Em ambas as ocasiões de câmara em punho. Quem está, faltou ou faz anos são pormenores de pouco interesse nesta festa.

          Os jovens adultos já trabalham. São uns adolescentes com contas para pagarem. E quem paga contas e trabalha tem temas de conversa. Pessoas para dizer mal, no fundo. A principal diferença entre este aniversário e o do adolescente é que durante a festa conversasse. Também se bebe- mais devagar, é certo, mas o destino é o mesmo. Fotos e vídeos comprometedores no youtube. Esta festa é normalmente acompanhada por uma televisão que emite um jogo de futebol que tem mais importância que o bolo de aniversário. Nesta idade o bolo só ganha relevância em despedidas de solteiras, onde inevitavelmente terá a forma de um pénis erecto. Exactamente igual ao do balão na mão da noiva.

           Os adultos já tratam o aniversário com uma classe e subtileza diferentes. Não que deixem de se embebedarem, mentem é na idade e convidam pessoas que não suportam. Desde a hora de chegada à maneira de se despedirem da sala é tudo calculado como a colocação de uma peça num relógio suíço. As pessoas das festas dividem-se em dois grupos. Os que falam de temas profundos e passam por inteligentes e os que contam anedotas ordinárias e riem alto, passando por infantis. O aniversariante vai odiar qualquer um dos grupos.

           Na terceira idade perde-se a magia principalmente porque o aniversariante não sabe que faz anos o que torna a data um dia normal mas com mais gente em casa. Com a idade, a experiência e os comprimidos dão ao idoso uma habilidade que qualquer adolescente inveja. Com um cocktail de medicamentos, qualquer grama de álcool torna tudo muito mais interessante. No fundo o idoso sabe aproveitar a sua festa de anos. Quer aproveitar para ver aqueles com quem já não tem contacto. E ainda está vivo. Quer aproveitar para ver a família. Sem estar a discutir heranças. E quer estar sossegado. Algo que nunca conseguiu em nenhuma aniversário da sua vida.


           A dois meses de fazer anos,

           Guilherme Fonseca

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publicado por Guilherme Fonseca às 13:02
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2 comentários:
De PL a 12 de Março de 2009 às 19:25
A dois meses de fazer anos,
Pedro Lopes


De Cris a 12 de Março de 2009 às 20:04
Prespicaz ;) Tá muito bem apanhado!


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