Quinta-feira, 26 de Março de 2009

#2.30 - camisa de vénus

            Esta semana a comunidade científica em especial e a humanidade em geral foram abaladas por uma citação particular. O representante máximo de um grupo conservador, coleccionador de seguidores que não do Twitter, proferiu que o preservativo não só não ajudava na luta contra o SIDA como ainda a prejudica. O Papa Bento XVI conseguiu numa simples frase assassinar a ciência contemporânea com um machado afiado, pontapear o senso comum nos dentes com uma bota da tropa e esparramar-se ao comprido numa escadaria longa de razão e decência.  

            Duvido que precise de qualquer tipo de explicação mas o preservativo não passa de um pedaço de látex que serve para impedir gravidezes, impedir a transmissão de doenças e obrigar os homens a pensarem com antecedência nos seus encontros. Subtilmente, a questão do transporte do preservativo na carteira torna-se importante. Até que ponto andar com um preservativo na carteira é um sinal de constante “disponibilidade”? Ou o facto de nos termos de desviar para o arranjar sinal de irresponsabilidade e descuido? É um tema sensível que          me leva então a perguntar: terá algum mal as mulheres também terem um com elas? Ou isso sim dá o sinal errado? Acho que devia ser obrigatório estar-se sempre na posse de um. O cartão do cidadão não pode ter também essa funcionalidade?
            A verdade é que uma caixa de preservativos não é uma coisa barata. Basta perdermos alguns segundos da nossa vida num corredor de supermercado para ver como o mercado dos preservativos tiram o romantismo todo ao acto. Pensem assim: uma caixa de 12 preservativos custa mais ou menos 10 euros, o que perfaz um arredondado euro por sessão sexual. Vocês gostam da ideia de uma queca com a vossa cara-metade custar tanto como um Happy Meal? No fim também pedem um Sundae? Há menus? Não gosto de como o mercado nos força a vermos as relações sexuais como fast food. Muito menos se tivermos de pagar o molho barbecue.
            Com as nossas movimentadas vida actuais há coisas para as quais o tempo não chega e que nos obrigam a gerir melhor o nosso dia-a-dia. Enquanto que a Bimby, a gravação da Zon ou a Porteira do nosso prédio facilitam a nossa constante actualização social, a industria dos preservativos também fez o seu trabalho. Teve menos tempo para jantar e só conseguiu ver o seu marido quando chegou tarde? Não ligue para a Telepizza. Há preservativos com sabores diversos. Acho positivo as marcas de preservativos terem-se lembrado das refeições. De fruta a chocolate, entradas a sobremesas, são variados os sabores que pontilham os nossos amigos de Látex. Já não há desculpa para não manter a dieta ou saltar uma refeição a meio do dia. Junte o saudável ao agradável e comece o verdadeiro multi-tasking.  
            Verdade seja dita, há apenas três tipos de pessoas que não usam o preservativo. Habitantes de países de terceiro mundo, católicos e actores pornográficos. Os primeiros não os têm simplesmente porque a lei da oferta e da procura dos mesmos é tão usual como sistemas de esgotos. Os segundos e os terceiros não os utilizam por puras convicções pessoais. Ambos acreditam que vai contra os seus princípios usá-los porque prejudicam aquilo em que acreditam estar certo, aquilo que de melhor fazem. Todos os restantes habitantes deste planeta devem usar o preservativo. É sinónimo de Segurança para os adolescentes, Saúde para todos e Kriptonite pública para quem usar chapéus pontiagudos e morar no Vaticano.
           
            A olhar para a carteira,
            Guilherme Fonseca
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publicado por Guilherme Fonseca às 23:42
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