Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

#2.31 - all in

            Um baralho de cartas serve para quatro coisas. Jogos diversos, truques de ilusionismo, peso no saco de praia e ajeitar linhas de coca. No entanto, de todas as actividades que se podem fazer com 52 pedaços de papel ilustrado, apenas uma une todas estas. Uma actividade que pode modificar as emoções e sensações de um ser humano ainda mais que o resultado de jogo de futebol da selecção Portuguesa contra a França em 2000. Peguem em cinco ao acaso e vamos falar de Poker.

            Ficava bem neste primeiro parágrafo falar um pouco da história do Poker mas depois de pensar uns segundos nisso concluo que a história do jogo não importa para absolutamente nada. É e sempre foi igual, tal como sempre resultou e resultará nos mesmos momentos. Alegria eufórica ou total desespero humano face à vida. Um jogo de Poker pode fazer-nos sentir um Milionário acabado de receber o talão num Multibanco ou um pedaço de pedra e gelo derretido num meteorito perdido nos confins do Universo. Se as cartas batem certas parece que um grande e poderoso Deus nos sorri e pisca o olho entre nuvens num pôr-do-sol paradisíaco mas saiam da frente de um jogador que passou por um “bad beat”. Ele não vos reconhece e se olhar para vocês, verá apenas a carta que lhe lixou o jogo.
            Certo, vou explicar como tudo funciona. Há várias maneiras de jogar Poker mas só uma tem piada e é popular o suficiente para passar na televisão. “Texas Hold’em” é o nome que se dá a este tipo de Poker e a um acto sexual que se faz em bares de strip no respectivo estado Americano. 2 cartas são dadas a todos os jogadores da mesa. Depois 5 cartas se vão virar para cima na mesa. Primeiro três e depois mais um e outra, ordenadamente. O objectivo do jogo é exactamente o mesmo que o de estudantes universitários bêbados em festas de Faculdades: Fazer combinações entre tudo o que está a vista. Pares, trios e sequências, respectivamente. Ganha o jogador que tiver a combinação mais forte. E não ficar com herpes no dia seguinte.
            O grande problema/atractivo deste jogo é que envolve sempre sorte e saber. Não é um jogo de xadrez, onde apenas o saber tem peso, como também não é a roleta russa do “Dear Hunter”, onde só a sorte e o tamanho dos testículos têm peso. A combinação entre receber as cartas certas e fazer delas o que se quer faz do Poker um jogo de estratégia, mestria e total colapso nervoso. Não vos consigo dizer quanto pende para cada lado numa escala de percentagens. Um jogador que perdeu dirá: “70% sorte” – “30% saber jogar”. Um jogador que ganhou dirá: “70% saber jogar” – “30% sorte”. Um jogador a quem não sobra nada senão uma dívida ao banco, mãe e merceeiro dirá: 70% “sai-me da frente antes que te bata” – 30% “não tens moedas contigo?”
            Há três estilos de jogadores de Poker. Há os irrequietos e faladores que ou mandam piadas parvas para descomprimir a tensão ou se insultam uns aos outros em como já ganharam mais dinheiro que todo o casino do Estoril. Há os jogadores que estão calados, que treinam a sua cara robótica ao espelho e usam auscultadores/óculos escuros para passarem por bons jogadores. Até mesmo quando jogam online não largam a indumentária. E depois há os rookies. Os piores de todos. Estes são aqueles que são trazidos pela primeira vez por um jogador regular, passam a noite toda a confirmar a ordem de grandeza das mãos mais fortes e no final, conseguem ficar com o dinheiro de toda a gente. Alguns com pares de óculos também.
            É um jogo de cartas como nenhum outro. Que me desculpem os fanáticos da “Sueca” e do “Olho do cu”. Não necessariamente ao mesmo tempo. O nervosismo depois de um “All in”, aquele segundo em que levantas e descobres que cartas tens ou o pousar das fichas durante uma aposta deixa para trás qualquer fanatismo, dúvida ou insegurança. Um jogo de Poker é como que uma lição de vida a cada mão. Aprendes o que fazer com aquilo que tens à tua disposição e a avaliar as tuas decisões, enquanto sobrevives a situações de total stress e desespero. Tudo isto enquanto confraternizas com amigos e percebes que não tens dinheiro para voltar para casa. Há melhor maneira de se aproveitar o facto de se estar vivo?
 
            A precisar de ir levantar dinheiro,
            Guilherme Fonseca
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publicado por Guilherme Fonseca às 02:37
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1 comentário:
De Pai a 8 de Abril de 2009 às 12:25
Sim senhor.... Gostei :)
E mais, deu-me vontade de jogar umas voltinhas de poker :P
Ah, um baralho ainda serve para uma 5ª coisa... para uma bruxa amalucada e mal-cheirosa te inventar um futuro.

abraços :)


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