Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

#2.32 - heckling

            Faz parte da condição humana. Por mais sossegados ou discretos que sejamos queremos sempre um pouco de atenção. Queremos reconhecimento, aprovação ou só mesmo que olhem para as nossas calças novas. Este fenómeno é mais comum nas crianças mas existe também em adultos quando, por exemplo, ficam quietos a meio de um cruzamento parando o trânsito ou metemos conversa em salas de espera da loja do cidadão. Não tenho nada contra isto, sou aliás muito a favor de que as pessoas olhem umas para as outras, se falem, se toquem, se conheçam e tenha montes de bebés umas com as outras. Só peço, encarecidamente, que procurem essa atenção da humanidade em qualquer hora que não aquela em que estou a fazer stand-up.

         Com certeza isto já vos aconteceu. Estão a contar um sonho, uma história ou uma anedota a um grupo de pessoas. Durante a vossa narração, haverão pontos em que perguntas têm de ser respondidas. “Nem adivinhas o que ela disse”. São pontos comuns em qualquer histórias. Quase tão comuns como as pessoas com o vício de tentarem acabar a histórias por vocês. “Ela disse que se ia embora, aposto.” Esta interrupção irritante, e infelizmente repetida por maior parte da população mundial, é um tipo de “heckling”. E uma maneira rápida de se justificar a morte de alguém.

         O nome técnico para aquele que interrompe palestras, comícios ou espectáculos públicos é “heckler”. É nada mais que um indivíduo que acha que estar a ouvir outros não tem tanta piada como ele próprio se armar em parvo. Faço stand up comedy há quase três anos, quase uma centena de actuações, e já me aconteceu cerca de 5 vezes. Das 5 vezes que fui interrompido, 1 a pessoa estava divertida, 4 a pessoa estava com amigos e os 5 estavam podres de bêbados.

          Imaginem-se num bar. Estão a conversar com os vossos amigos sobre o vosso dia, sobre futebol ou sobre a decoração do espaço, o que acontece se forem fãs do “Querido, Mudei a casa”. De repente um rapaz jovial, esbelto e engraçado começa a fazer stand-up comedy nesse mesmo estabelecimento. Tenha ele ou não piada, ninguém no seu perfeito juízo vai gritar palavras desconexas ou insultos. É preciso muito álcool e falta de respeito para isso acontecer. Portanto, o que leva um gajo bêbado rodeado pelos amigos a gritar comentários javardos durante um espectáculo? Duas coisas.

          A primeira é falta de atenção, como disse antes. Este gajo não só precisa de beber para se sentir bem, algo que já indica frustrações grandes a nível social, como procura as atenções para si a todo o custo. Não é raro chegarem ao ponto de tirarem as calças em homenagem ao seu programa favorito, “Maré Alta” da Sic. Fazer rir não é fácil e este corajoso indivíduo acha que consegue fazer melhor que o profissional de microfone na mão. Começa a refutar cada piada do comediante procurando sempre o riso dos amigos. Grita palavrões, insultos ou o sempre preferido de alguém com um elevado grau de alcoolémia: “uhigaist!”. Se os amigos se rirem cria-se aqui um efeito bola de neve de encorajamento que o leva por caminhos nunca dantes navegados. Ou a noite está estragada para todos ou este otário apanha um comediante que o “enxuvalha” em público, deixando-o a chorar, na posição fetal, agarrado a um barril de Sagres.

           A segunda razão não só não é oposta da outra como até é maioritariamente complementar. Um pénis demasiado pequeno. Estes indivíduos são aqueles que nunca estão nus em ginásios. Que usam sempre as sanitas nas casas de banho públicas em detrimento de qualquer urinol. E que trancam a porta da casa de banho da sua própria casa até quando estão sozinhos. São pessoas que não gostam de si próprias e que quando estão com mais álcool no sangue têm de provar a si mesmos, através dos outros, que são “normais”, engraçados e “aceites”. Pessoas que apenas precisavam de palavras de apoio durante um duro dia de trabalho ou uma rápida sessão de sexo no banco de trás do carro com profissionais pagas em euros.

           Não há qualquer razão para se interromper um espectáculo para além de falta de respeito. Se não gostam, virem-se para o lado. Se não queriam ouvir, saiam do bar. Se acham que têem piada, escrevam textos e arranjem bares e microfones para vocês. Começo a ser adepto de se fazer “heckling” em geral na vida. De pessoas na rua, no trabalho ou mesmo na sua vida privada. Imaginem ter alguém sempre nas vossas costas a gritarem insultos, a dizerem que vocês não prestam, só pelo prazer de serem ouvidos. Aposto que no próximo espectáculo que vissem, estavam calados.


           Convicto de que nunca lhe tirarão o prazer de fazer stand up,

           Guilherme Fonseca

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publicado por Guilherme Fonseca às 13:03
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