Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

#2.34 - primeiro dia

             E novamente fico desempregado. É quase como estar de gripe. Algumas pessoas lá a vão curando, outras conseguem acertar com o comprimido e conseguem controlá-la e os últimos, coitados, têm-na de forma crónica. Na verdade ninguém me mandou tirar uma licenciatura em argumento. Eu estava pedi-las. Parece que quem quer perseguir na vida aquilo que mais gosta tem de sofrer ou mudar de País até gastar o dinheiro aos pais. Porque se eu quisesse ganhar dinheiro fácil vendia droga. Ou abria um bar de alterne. Ou abria um bar de alterne com droga.
            Não está fácil para ninguém. Seja porque razão for, há demasiadas pessoas sem razão monetária e contratual para acordar de manhã. A taxa de desemprego em Portugal está por volta dos 10%. Mais de meio milhão de portugueses sem emprego. Isto quer dizer que se estiverem numa sala de cinema 100 pessoas, 10 não têm emprego. Só se estiverem dentro de um MacDonalds é que esta estatística muda. Apenas aí em 100 pessoas, 90 sejam capazes de não ter emprego. E já estou a contar com quem vos faz as batatas fritas.
            Se pensarem a fundo no desemprego reparam que haverá sempre, esteja o mundo como estiver. Atentem nesta ironia. Há uma pessoa cujo emprego é estudar estatisticamente o desemprego. Se não houver desemprego nenhum, será ele que estará desempregado. É um ciclo vicioso. A maneira mais fácil de ser combatido é com trabalhos temporários, pequenos, daqueles que vão dando dinheiro mas que ninguém gosta de dizer aos amigos que faz. Caixa de supermercado e operador num Call-Center são os mais famosos. Comentador de futebol na Sic Notícias viria em seguida na lista.
            Se vocês estão a contar trocos como se uma “vítima” do Madoff fossem, estão desempregados. Se não fazem a barba há tantos dias como um hippie ou um bloquista, estão desempregados. Se já nem usam calças sequer para ir buscar o correio, estão desempregados. Se a EuroSport é o vosso canal de eleição actualmente, estão desempregados. Se vos falta o ar quando têm de pagar uma rodada aos amigos num bar, estão desempregados. Se se masturbam três vezes mais do que é normal, estão desempregados. Ou então deviam estar.
            É isto que faz um desempregado. Dorme muito, acorda tarde, come demais, fala de menos, não cria de todo e avalia de tudo. Demasiadas vezes o desemprego ocorre por “cedência”. Estamos num posto que não gostamos, a fazer algo que odiamos, para pessoas que queríamos ver mortas mas apenas no mantêmos nessa situação porque precisamos do dinheiro. Aquilo verde que nas palavras da Sally Bowles e do Joe Berardo faz o “mundo girar”. Para esses ou se descobre uma maneira de apreciar o que se faz ou se é extremamente infeliz. Como os milhares de professores que querem dar aulas mas têm de fazer centenas de quilómetros todos os dias, para longe da família e para perto de burocracias e solidão estatal. Continua-se a perseguir um sonho e uma carreira? Ou há sujidade a mais nas escadas de um prédio que me pague? Eu só queria que todos os patrões que prendem actualmente empregados com a conversa do “mais vale este emprego assim que nenhum, não?” fossem sofrer penáltis do Pepe.
Acabo este pequeno e difuso texto de um tema sério com a letra de uma canção e uma história bonita. No dia em que soube que estava novamente desempregado o rádio estava tocar. Entre hits diversos começou um senhor de voz agradável que dá pelo nome de Sérgio, a cantar: “Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo/ dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo/ diz-se do passado, que está moribundo/ bebe-se o alento num copo sem fundo/ e vem-nos à memória uma frase batida/ hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.” Não quero apelar ao alcoolismo, muito menos confundir o leitor fazendo-o tentar beber “alento”, quero dizer que aconteça o que acontecer, é sempre o primeiro dia do resto da minha vida.
 
Com demasiado tempo livre,

                Guilherme Fonseca

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publicado por Guilherme Fonseca às 16:57
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3 comentários:
De Quedas a 23 de Abril de 2009 às 18:14
O desemprego faz-te bem. Diz-se que a necessidade é a mãe da invenção e tu deves estar muito necessitado, porque este texto está fabuloso. Com o desejo que arranjes emprego rapidamente (mas não antes de eu arranjar uma namorada - you're so fucked...).

Abração,

Quedas "O Bravo"


De Anónimo a 23 de Abril de 2009 às 19:55
Gui ...

Não ter emprego, é uma oportunidade de fazer algo de facto. Tens de ter uma missão. Se não tens nenhuma, descobre-a pq tens tempo para isso.
Podes sempre acabar como o Lebowvsky ...é um risco. Mas que piada teria a vida sem riscos? (sem conotações toxicómanas )
E acho que estás a melhorar os textos de dia para dia... ring any bell ?

Abraço
Rafa


De Pai a 27 de Abril de 2009 às 19:40
Estou de acordo com os anteriores comentadores, o desemprego faz-te bem. Para mim que te conheço desde o tempo em que não eras mais que um projecto, estás cada vez melhor, mais crescido (piroso), apto (proto-profissional), eloquente (intelectual com cheiro a mofo... ).
Enfim, escreve, que quem escreve seus males espanta, e espantas mais uma data de gente.
Abreijos do teu Pai que te lerá até à última gota e que, à falta de melhor, de convida pra jantar quando quiseres :)


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