Quinta-feira, 30 de Abril de 2009

#2.35 - orgulhosamente acompanhados

               Àqueles que acham que o filme da Maria de Medeiros “Capitães de Abril” é ficção científica, digo que espero que vocês sejam poucos. Àqueles que acham que no passado 25 de Abril se deram cravos porque um decorador de interiores foi contratado para decorar Lisboa inteira, digo que precisam de sair mais vezes de casa. Àqueles que acham que as pessoas que saíram à rua no passado 25 de Abril eram outra vez os professores que “não conseguem estar calados”, digo que até têm alguma razão. Vamos falar do dia que todos os portugueses festejam mas que nem todos gostam.

A “Revolução dos Cravos” derrubou o “Estado Novo”, um governo fascista de 41 anos que estava obviamente em negação suficiente para ainda se tratar por “novo”. O ponto de partida da revolução foi dado a partir da rádio. Às 22.55h do dia 24 de Abril, “E depois do Adeus” de Paulo de Carvalho começa a tocar indicando a todos os militares que a revolução se estava a iniciar. Tivessem estes homens telemóveis e não eram precisas nem 24 horas para tudo começar, nem obrigar as rádios a passarem música portuguesa, quando nós sabemos que elas não gostam disso. Basta ver actualmente a velocidade a que uma manifestação contra o poder se cria no Marquês de Pombal para se constatar que não só já somos profissionais a reclamar, como temos sempre saldo no telemóvel.
Assim sendo, de vários pontos do país militares organizados começaram a espalhar o pânico, a palavra e a revolução, não necessariamente nesta mesma ordem. As principais figuras do 25 de Abril são os capitães em particular, a força militar em geral, o Marcelo Caetano, os floristas da capital e uma cadeira de madeira. A cadeira foi o primeiro a actuar porque mandou para uma cama de hospital um homem que foi mais tarde substituído por outro igualzinho mas com a diferença de não meter medo a ninguém. Os segundos protagonistas são os floristas que foram “espertalhões” e souberam aproveitar o dia para fazer negócio. O Marcelo Caetano foi o coitado que acordou bem disposto mas acabou o dia a desejar não ter nascido e os militares foram quem implementou as mudanças que os capitães transformaram de vontades em ordens. Todas estas pessoas nesta lista foram importantes para o dia acontecer, inclusivé a cadeira, que apesar de apanhada de surpresa na equação, o seu trabalho é vastamente apreciado por todos aqueles que não trabalham no IKEA.
            A imagem do 25 de Abril é o cravo. Não que faça de nós portugueses seres de sexualidade duvidosa mas podíamos ter escolhido algo mais másculo. Uma “flor” deixa-nos mal vistos perante outros símbolos iconográficos internacionais como a “foice e o martelo” da Rússia ou o “hambúrguer” dos Estados Unidos. A ideia que passa ao estrangeiro o facto do nosso símbolo revolucionário ser uma flor é que somos um povo que anda à pancada sem se querer a aleijar de verdade. Se o símbolo da nossa revolução fosse uma “picareta” aposto que a restante comunidade europeia diria: “Tratem bem esses portugueses! Expulsaram do poder um governo fascista com ferramentas da construção civil. Convém dar-mos os subsídios que eles quiserem para a agricultura ou estamos bem lixados…” 
O esforço seguinte e final é olhar para o 25 de Abril mas com 35 anos de avanço. A Esquerda acha que a revolução ficou a meio. A Direita acha que a revolução foi mal gerida. O Centro treme de medo quando ouve a palavra “revolução” e os portugueses votam em Salazar como o melhor Português de todos os tempos. Há algo de podre no reino das Quinas? Perdidos entre “lados” políticos, façamos um pequeno exercício. O que é para nós o 25 de Abril?
 
A pensar seriamente em para o ano comprar picaretas,
Guilherme Fonseca
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publicado por Guilherme Fonseca às 18:06
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Todas as Quintas o humorista Guilherme Fonseca publica um novo texto!

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