Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

#2.36 - análises aos exames

               Esta segunda-feira resolvi dedicá-la à terceira idade. Não que tenha ajudado velhinhas a atravessar estradas ou me tenha esquecido do meu nome, a minha segunda-feira desta semana foi passada de médico em médico, de clínica em clínica, de humilhação pública em humilhação pública, sem que eu tenha feito nada para o merecer. A rotina médica e o zelo pela minha “máquina” assim o obrigam.

            Comecei com análises de rotina ao sangue e à urina, coisas que só tinha visto juntas em casas de banho de estádios de futebol. As clínicas de análises são o local mais permissivo do planeta. São o único sítio para onde se vai directamente da cama. Não se pode comer, não se pode urinar e lavar os dentes é discutível. O acto de tirar sangue é maquiavélico porque se tivermos uma pontinha de hipocondrismo, faz-nos duvidar das pessoas que mais gostamos. “E se eu tenho alguma coisa? A culpa é dela… Ela deve ter andado com mais alguém, nós discutimos no outro dia. Eu sabia! Por isso é que o Xico não me atende o telefone! Ele agora também já deve ter… Bem feito, não me andasse a comer a namorada!”. Relato que pode bem ser real e que prova como uma análise ao sangue acaba relações mais depressa que uma Playstation 3.
A outra análise, a da urina, na minha opinião, é só uma maneira das clínicas gozarem connosco. Primeiro, dão-me um tubinho de ensaio de 100 mm/l. Sete centímetros de comprimento e mais fino que uma caneta. Primeira piada da clínica. Eu sou homem, nem na sanita acerto quanto mais num frasquinho que leva duas a três lágrimas antes de encher. Depois, pedem para nos deslocarmos à casa de banho para retirarmos a amostra. Segunda piada da clínica. Não se pode obrigar ninguém a urinar. É como adormecer ou ter uma erecção, não se controlam essas reacções do corpo. Tentar urinar obrigado faz-me sentir que tenho dez médicos de bata na casa de banho comigo a desesperarem pela demora do processo. Pode ser que tenham uma surpresa no tapete da entrada amanhã. Sem ser obrigado a fazê-lo.
            Seguiu-se o Dentista na minha lista de afazeres médicos. Nisso estou contente porque tenho a sorte de ter o último dentista português a trabalhar em Portugal e de ele não me cobrar mais por isso. Tenho dois dentes tortos e ando a ver se os endireito mas como um aparelho é brinquedo para custar boas centenas de euros, arranjou-se uma alternativa. Apresento-vos o aparelho dos pobres: uma lima. O meu dentista lima-me o espaço entre os dentes para que eles se consigam endireitar na formatura. Nunca pensei que algo que se vendesse no AKI fosse também usado por médicos especializados para nos melhorar a condição física. O que se segue? Berbequins que nos limpem os ouvidos? Debulhadoras que nos endireitem as costas? Serrotes biológicos para a linha? Cheira-me aqui a parcerias lucrativas.
            À tarde a minha personificação como idoso dava um passo vital. Visitar hospitais. Primeiro fui fazer um Raio X ao toráx. Tenho de confessar que é um procedimento completamente indolor mas não sei porquê duvido sempre de procedimentos médicos que impliquem o operador da máquina afastar-se da mesma ou colocar roupa de protecção para os fazer. Porque raio se afasta ele? Por causa das radiações? Posso, num incrível e improvável acidente com aquela máquina, transformar-me no Super Raio-X? Um herói valente que combate o crime sabendo as mazelas ósseas dos criminosos? Gosto dessa possibilidade.
            Acabei o dia a fazer um eletrocardiograma. Depois de ter ouvido falar deste procedimento em tantas séries julguei que seria mais entusiasmante do que realmente foi. Demora um minuto, comigo deitado de barriga para cima, uns fios elétricos colados ao corpo, e nem tenho de respirar fundo, que é o mínimo que se pede a um paciente num exame qualquer. É engraçado mas é algo que o Super Raio-X nunca teria de fazer. Acabei o meu dia a sentir-me cansado, violado e usado, expectante com tudo o que é resultado e adivinhem com vontade de fazer o quê...
 
Já em estágio para a terceira idade,
Guilherme Fonseca
tags:
publicado por Guilherme Fonseca às 04:05
link do post | comentar | favorito

.O Autor

Todas as Quintas o humorista Guilherme Fonseca publica um novo texto!

.textos recentes

. #2.42 - Ponto final. Pará...

. #2.41 - abstenho-me

. #2.40 - game on!

. #2.39 - let's talk about ...

. #2.38 - a angústia dos ch...

. #2.37 - grandes porcos

. #2.36 - análises aos exam...

. #2.35 - orgulhosamente ac...

. #2.34 - primeiro dia

. #2.33 - treme treme

.arquivos

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

.links

.leituras

Contador de visitas