Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

#2.38 - a angústia dos chatos

           Ora aqui está uma disciplina que não tive na escola. Educação sexual. Para além dos primeiros, infantis e rebarbados pensamentos sobre como serão as provas de avaliação, é com desagrado que reparo que passei anos de escolaridade na minha infância inteira sem nunca me terem falado de preservativos, missionários ou chuvas douradas. Seria uma pessoa muito mais feliz se não tivesse de ter sacado fotografias e filmes pornográficos às escondidas e tivesse tido essa experiência numa sala de aula com colegas, professores e contínuos bêbados que gritam obscenidades.

            No meu tempo eram outras as fontes onde se buscavam referências. A primeira era sempre um “primo”. Toda a gente tinha um “primo” mais velho que já tinha feito sexo e que nos dava dicas e conselhos. Falava do que fazer, como fazer e onde fazer como se fosse um Deus do sexo mas a verdade é que esse “primo” nunca foi visto em lado nenhum. Nas aldeias era provavelmente o Padre a fazer-se passar por esperto. Nas cidades era provavelmente um tio amaricado, que bebia muito e falava alto. Se não fosse o primo tínhamos revistas como a Playboy. Não era exactamente “sexo” mas para uma criança de 9 anos, ver uma mulher nua e fazer duas horas de sexo não era muito diferente. Na Playboy eu adorava sempre as poses das mulheres. Parecendo que não, a diferença entre uma “Pose sexy” e uma “pose de quem tem dores de barriga” é muito pouca. Vê-se nos vossos olhos, coelhinhas.
            Havia também o Canal 18. Esse mítico que inspirou milhares de piadas a “comediantes” e “engraçadotes-de-máquina-de-café” durante anos. Mais que ensinar sobre sexo, o Canal 18 ensinava-nos a ser espiões internacionais. A parte em que tentávamos ficar sozinhos, ligávamos a televisão sem som, víamos minutos daquilo e saímos da sala a correr para a casa-de-banho era mais ilustrativa dos nossos poderes físicos e psicológicos que qualquer James Bond. Esse nunca trabalhou para ter sexo.
            Actualmente a questão da Educação Sexual está novamente a crescer mas infelizmente está no sítio errado, na hora errada. Há umas semanas atrás uma iniciativa promoveu a distribuição de preservativos grátis nas escolas. Tão simples como isto: um grupo de pessoas com a tarde livre e boa vontade ia a secundárias distribuir preservativos. Imediatamente aqueles idosos da área do Restelo começaram a classificar isto como “deboche”, “vergonha” e “tristeza”, alegando que “iniciativas destas incentivam as crianças a praticar sexo”. O que incentiva as crianças a fazer sexo é o que têm entre as pernas! Se puserem um pedaço de latéx entre si estão bastante melhores, não? São preservativos, não é viagra, tequilha e venda de bilhetes para a primeira fila. Depois há é o outro reverso da medalha.
            Se nestas escolas a distribuição de preservativos é uma “vergonha”, em Espinho não seria mais que ir à missa. Ora aqui está uma localidade portuguesa, uma escola portuguesa e mais especificamente, uma professora portuguesa, que tem uma noção diferente de Educação Sexual. Se nas outras escolas não se fala, com esta mulher não só se fala como se insultam os alunos. Se nas outras escolas se pratica sexo, estes alunos praticam orgias. Se nas outras escolas se roubam telemóveis, nesta rouba-se tempo de aula para destruir carreiras como docente e cabeças de adolescente.
            Se continuarmos a falar de sexo a dois tempos, ou parado e retrógrado ou num deboche total embutido em insultos parvos, nunca vamos conseguir educar ninguém em coisas nenhuma. Muito menos na arte da intimidade e do toque. Se não se falar de sexo com inteligência, calma e cuidado acabamos a fazer figuras tristes seja na cama, seja na comunicação social, seja numa sala de aula. Acho que podemos todos começar por ler um livro chamado “A Angústia do Chato antes do Coito”, de Antonio Fischetti. Pelo que andamos a (tentar) dizer em relação à educação sexual, acho indicado. A professora de Espinho que vai ficar com tempo livre que se dedique à leitura. Nem que seja da Playboy.
 
            A espera que comecem um “Canal 18 memória”,
            Guilherme Fonseca   
tags:
publicado por Guilherme Fonseca às 15:31
link do post | comentar | favorito

.O Autor

Todas as Quintas o humorista Guilherme Fonseca publica um novo texto!

.textos recentes

. #2.42 - Ponto final. Pará...

. #2.41 - abstenho-me

. #2.40 - game on!

. #2.39 - let's talk about ...

. #2.38 - a angústia dos ch...

. #2.37 - grandes porcos

. #2.36 - análises aos exam...

. #2.35 - orgulhosamente ac...

. #2.34 - primeiro dia

. #2.33 - treme treme

.arquivos

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

.links

.leituras

Contador de visitas