Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

#5 - traques, meu amor

Hoje quero entrar em terrenos pantanosos. Tenho medo mas acho que depois de umas belas passadas as coisas começam a discorrer com naturalidade, que como vão perceber pelo tema, é isso mesmo que nós queremos, “coisas a discorrerem com naturalidade”.

Quero falar hoje de espaço e permissão para “traques” numa relação amorosa. Pois, já perceberam porque estou pé ante pé, com lama até aos joelhos. Porque vejamos, o traque é algo que, na sua solidão ou companhia de similares, o homem usa e abusa como um veterano de guerra ostenta uma medalha. Ou a falta de uma perna. Ou a demência. Não sei que mais pode acontecer a um veterano de guerra sem perder o orgulho, mas nós tratamos os traques como iguais, sabemos distingui-los uns dos outros apenas pelo barulho que fazem na nossa barriga, utilizamo-los como forma de comunicação e ainda, em casos extremos damos-lhes nome. É verdade, senhoras, damos mesmo porque ele esteve lá connosco em alturas más em que vocês não. Portanto, tendo esta espectacular relação com um pedaço ventoso gástrico, como podemos nós ter que ignorar este amigo de longa data, este companheiro de sessões televisivas chatas e aborrecidas, sem mais nem menos, simplesmente porque estamos com a nossa cara-metade?

            Observação óbvia número #1: se essa cara-metade está chateada ou aborrecida de alguma maneira, não há sexo, há dores de cabeça ou indisposições súbitas. Há portanto uma relação que nós queremos a três e que a nossa companheira quer estritamente a dois, e de ar não poluído. Se vocês se cruzassem com o Eusébio no Colombo, no meio da Sportzone, secção de canoagem obviamente, vocês fingiam que não o conheciam só porque a vossa namorada diz que isso levaria à “secura”? Que tipo de masculinidade têm vocês nas veias? Ou onde quer que a masculinidade ande…? Pois, eu também ignorava. Não sabemos porquê, mas elas mandam… pronto, tem que ser… mas apesar de nos submetermos desta maneira desenvolvemos técnicas e estilos de ataque que nos permitem acompanhar o percurso deste amigalhaço sem que ela sequer desconfie. Senão vejamos, existem 2 tipos de namorados. Existem os que abertamente, vulgo “à cara podre”, se soltam na companhia da sua cara-metade, e quem sabe seus familiares, quem sabe ainda num funeral, e que por isso estão desaparecidos sem se saber do seu paradeiro. E depois existem aqueles que desenvolveram a capacidade sub-reptícia de se soltarem que nem ninjas treinados no Tibete. Se é que os Ninjas se treinam no Tibete. Um Ninja que comente esta crónica, se faz favor.

            Portanto como sobrevivem este namorados que nas costas, e isto literalmente, continuam a acompanhar o crescimento dos seus “petizes”. Nem todos, os traques digo, saem vitoriosamente silenciosos. Já aconteceu a cena numa relação perto de si:

Ela- “Sniff Sniff”

Ele disfarça olhando fixamente para o que estava a fazer.

Ela- Amooooor… (prolongado e doloroso) tu peidaste-te? (Nota do Autor: raramente usam de facto o termo “peido”. Normalmente usam outro sinónimo mais politicamente correcto que em nada dignifica o nosso amigo)

Ele- Como, amor? Não percebi? (desempenho para Globo de Ouro)

Ela- Perguntei se este cheiro foste tu!

Ele- O QUÊ? CHEIRO!! ESTÁS A INSINUAR QUE EU!!! EU!!!! ME PEIDEI AQUI SEM MAIS NEM MENOS!!! FICA SABENDO QUE NÃO ME PEIDO DESDE 86!! E FOI PORQUE ME MUDARAM MAL A FRALDA!!” (embora um pouco exagerado, desempenho para Óscar de Melhor actor)

 

            Como vêm há pequenos amiguinhos que quando começam a corrida para a liberdade deixam soar um alarme e ficam retidos na fronteira. Porque, e minhas amigas eu sei o que vocês estão a pensar agora, é IMPOSSIVEL para um homem aguentar um traque. Eu repito o termo para melhor compreensão: IMPOSSIVEL! Quando começamos a sentir aquelas dores no fundo das costas, lancinantes que embora temporárias bastante repetitivas, sabemos que não podemos virar a cara ao Eusébio. Podem chamar-nos de “porcos”, “javardos”, “indivíduos nojentos” ou mesmo “margarida” se vos apetecer, mas nós somos assim, e fomos feitos geneticamente e intrinsecamente assim. Não dá. Como fomos criados à sua imagem, até Deus sabe que isto é assim. E ele só não se preocupa com isto porque a única pessoa que está com ele lá em cima é o filho, logo sabe-se o que eles andam a fazer há alguns anos os dois juntos, divertidos e solitários. E há também o espírito santo, mas como é um espírito não entra no jogo nem refila. “Espiritiza”, ou lá o que é que ele faz. 

            Sendo assim há alguns confrontos no seio de uma relação a dois, que se almeja ser a três. Nós continuamos a desenvolver-nos para não quebrar amizades de longa data, as caras-metades continuam a patrulhar a zona e os traques continuam na fila para saltar cá para fora da melhor maneira possível e disponível no momento. Foi assim que as coisas evoluíram (pausa para invejar o homem Neanderthal, que não tinha imposições femininas destas) e que vão continuar a ser com certeza. A espécie humana, no seu ramo masculino, evolui desta forma e trabalha em prol de ares mais poluídos, enquanto que humoristas otários não continuarem a descortinar os movimentos subtis de uma raça inteira… merda…   

 

 

Guilherme Fonseca

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publicado por Guilherme Fonseca às 00:29
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2 comentários:
De Cal a 10 de Janeiro de 2008 às 19:13
Muito bom!
Muitos Parabéns ao Site pois Escolheram uma grande promessa da comédia Portuguesa para a vossa crónica. Os meus sinceros parabéns ao Comediante Guilherme Fonseca pelo seu trabalho.


De Joao Barros a 12 de Janeiro de 2008 às 17:22
Es um verdadeiro artista Gui! Continua com o teu bom trabalho! Abraço


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Todas as Quintas o humorista Guilherme Fonseca publica um novo texto!

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