Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2008

#7 - manif

Eu tenho rituais de manhã. Admito. Sei que nem todas as pessoas os têm e que os que os possuem divergem no grau de extremismo dos mesmos, mas eu tenho os meus, e sendo que 70% destes não vos dizem respeito, avancemos sem detalhes sórdidos ou jocosos da minha anatomia e de como a mantenho socialmente aceitável.  

Como ando de comboio e metro diariamente encontro as minhas doses de informação gratuitamente espalhadas pelas paragens de transportes públicos. Obviamente estou a falar dos jornais “Metro”, “Destak”, “Meia-hora” e “Global” que, pelo que vejo em páginas inteiras repletas de sondagens e gráficos elucidativos das vendas uns dos outros, rivalizam como claques de futebol movidas a Sagres. O problema é que, por vezes, as notícias desses mesmos jornais falam de coisas das quais eu não faço a mínima ideia o que são e quero portanto a vossa ajuda com isto.

Na página 4 do jornal o Metro, edição de terça-feira, dia 22 de Janeiro, está uma notícia que me captou a retina, “boazona” que ela é. A minha retina, não a notícia. Na base da página está o seguinte título de notícia:

 

“Moradores da Amadora exigem mais segurança”

 

            Começamos mal, portanto. Parece-me óbvio que aquilo que os moradores da Amadora querem é sanidade e clareza de pensamento porque se querem segurança não é morando na AMADORA que a vão ter. Experimentem MUDAR-SE e escusam de chatear quem quer que seja a quem estão a exigir “devaneios” e “loucuras”, como “segurança na amadora”. (pausa para gargalhada estridente e posterior cãimbra nos abdominais). O que é que querem exigir a seguir? “Exigimos… pá, exigimos… tipo… res… respirar debaixo de água!!! Sim senhora, porque é uma chatice quando cai qualquer coisa para o fundo da piscina no verão e temos de mergulhar a tarde inteira para encontrar! Exigimos isto e mais nada!” Exijam mas é comprimidos para demência.    

            Mas isto não fica por aqui. Se tiverem a possibilidade de continuar a acompanhar-me na notícia vem a “piéce de resistance” que me levou a procurar a vossa ajuda. Fala-se aqui de algo que não sei o que é nem de como se pratica. A notícia segue:

 

“Os moradores da urbanização Alto da Mira (nome que vem do facto de que quando estão lá em cima do alto dizem “MIRA ali em baixo, que bonito”… peço desculpa pela piada…), na Amadora, realizaram sábado à noite uma manifestação espontânea em que exigiram mais segurança (…)”.

 

            Meus queridos e “cheios de paciência” amigos leitores, o que é uma manifestação espontânea? Uma manifestação eu sei o que é. Uma cambada de verdes ou comunistas juntam-se empunhando cartazes com “palavras de ordem” (adoro a expressão “palavras de ordem”… imagino sempre cartazes que dizem “senta!”, “deita!”, “rebola!”…) reivindicando uma causa qualquer importante para eles, como o milho transgénico ou como nem todos têm a igual oportunidade e liberdade de estarem doentes por comerem milho transgénico.

            A questão aqui é: como se proporciona uma manifestação espontânea? Estão 40 moradores em casa, num sábado à noite como diz a notícia, a ver a Família Superstar ou outro programa (?) qualquer, e de repente, sem pré-aviso ou combinação, em puro sincronismo como aquelas nadadoras de plástico no nariz começam a gritar que querem segurança como se não houvesse amanhã? Isto parece-me tudo profundamente patético e ficcional. E ainda estou a falar da mesma notícia e não de como o Mário Lino tão rapidamente mudou de ideias aceitando Alcochete como opção para o aeroporto. Não acredito como pode ser possível 40 pessoas, numa noite de um sábado no meio da Amadora, terem a epifania e coincidência tal de começarem espontaneamente uma manifestação.

            Será isto uma condição médica? Como existe o Sindroma de Tourette existe o sindroma “vou começar a exigir parvoíces à toa”? Pode acontecer a qualquer um? Ou só a habitantes da Amadora que têm coragem de exigir… de exigir… segurança?! (fade out com uma gargalhada sonora)

 

Guilherme Fonseca   

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publicado por Guilherme Fonseca às 00:03
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Todas as Quintas o humorista Guilherme Fonseca publica um novo texto!

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