Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

#8 - não gosto de estar doente

Não gosto de estar doente. Acho que é um sentimento partilhado por toda a humanidade. É dos poucos sentimentos universais aliás, mas sem dúvida partilhado por todos nós. Arrisco ainda a dizer que na lista dos sentimentos da humanidade o top é “amor”, depois o “insuportável estar a rasca para mijar” e em terceiro “não gostar nadinha de estar doente”.

Quando somos pequenos estar doente até que nem é mau sinal. Assim que acordamos e nos pesa a cabeça o “estar doente” é a luz ao fundo do túnel que traz a companhia do comando da Playstation e da Televisão. Só temos de passar no teste do termómetro e se estiver acima dos 37 podemos ficar em casa, movidos a canja e a cházinho com torradas.  

Como é óbvio eu não estaria a falar disto se não fosse por justa causa. Apanhei uma virose e estou de febre e vómito em riste. Escrevo mesmo de balde a centímetros de distância. Acho indispensável o balde. É meu amigo e está aqui ao lado da minha cama o tempo que for preciso. Bendito balde de plástico. Seres prémio de rifa em feira popular não te dignifica como mereces. A tua simplicidade fisionómica em nada espelha a amizade e o tempo que passaste comigo de mão dada, ou aos meus pés na cama. Tenho de ir tomar outro clonix. Percebi agora que estou a falar com um balde de plástico.

A culpa deste período conturbado da minha flora intestinal de temperatura estupidamente alta foi do meu pai. Aquilo que os pais costumam dar aos filhos são mesadas e doenças hereditárias, mas o meu não ficou contente com o trabalho feito há 20 anos e emprestou-me uma virose qualquer no fim-de-semana. Faltava-lhe este toquezinho para acabar o trabalho. Imaginem o que seria se esta troca fervorosa de doenças fosse uma coisa normal, tipo emprestar dvd’s ou assim. “Olha pá, arranjei ali na expo esta diarreiazinha, pá… espectáculo, leva pa’ experimentares. Não te vais arrepender… do melhor mesmo, do melhor… devolves quando quiseres, não tem problema!”.     

Quando somos adultos não só não temos tempo para estarmos doentes como as doenças em questão nos deitam mais abaixo. Sofremos mais em estar doentes porque não é tão benéfico no sentido de nos “baldarmos às obrigações” e porque estamos mais habituados a que tudo funcione como deve de ser. O desconforto de ter o nosso corpo chateado com a vida é bastante grande. Sentimos mesmo que ele luta sem parar contra seres unicelulares que dificilmente se podem ver para dar porrada.

A febre é algo que sabemos que está lá mas que nos é difícil de acreditar. É como Deus para alguns, se permitirem ao meu lado ateu escrever nesta crónica de vez enquando. Sentimos a cabeça a latejar e percebemos que estamos mais quentes do que aquilo que devíamos mas ou ficamos amarelos e sem força no corpo ou então para nós pode ser só falta de café. Temos de espetar o termómetro em qualquer lado, muitas vezes sem vontade ou prazer absolutamente nenhum, e rezar para que os números sejam perto dos do euro milhões para que tudo esteja bem. Isto faz-me lembrar a maldade que era medirem-nos a temperatura quando éramos pequenos pelo rabo. Que acto de crueldade tamanha. Porque não pode ser como nos adultos pela boca? Ou pelo sovaco? E mais pergunto ainda, sendo que a boca, o sovaco e o ânus são os locais onde se põe o termómetro, porque é que este nunca cheira mal? E que valente porcaria que tudo isto é.

Tomem o acto de vomitar por exemplo. Uma pessoa vomita quantas vezes por ano? 1? 2? Pronto, 170 se fizer parte de uma tuna universitária. Vomitar é sem dúvida das coisas mais desconfortáveis que um humano pode suportar. É simplesmente o gesto de todo um corpo a deitar fora o que tem dentro, como se fosse um porteiro de discoteca metade bulímico.  

Estou debruçado sobre uma sanita, com a testa encostada ao braço que está sobre a loiça, de olhos fechados enquanto o meu estômago imita a crise política do Quénia. Sem aviso absolutamente nenhum aquilo que eram umas fantásticas batatas fritas que rodearam num prato um fantástico bife de vaca são agora o cenário que povoa o meu campo de visão. Saltam para a liberdade como presidiários fugitivos. Não sei se é pelo esforço que fazemos capaz de nos fazer saltar os olhos, se pelo precário e desencorajador horizonte com que nos deparamos no fundo da sanita mas regra geral vomitamos de olhos fechados. É mais uma regra geral da humanidade que podem juntar à lista.

Ao menos se fosse uma ressaca eu podia sentir-me culpado pelo que se me está a passar, mas a verdade é que alguém se mudou para o meu interior e não faz tensões de pagar renda ou sequer lavar a loiça de vez enquando. Comprimidos, escuridão e silêncio vão-me ajudar a ultrapassar isto. E se estão a pensar nisso: sim, eu sou uma autêntica flor de estufa. Vejam lá se não querem que eu vos tussa para cima...      

 

 

Guilherme Fonseca

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publicado por Guilherme Fonseca às 00:07
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2 comentários:
De Anónimo a 31 de Janeiro de 2008 às 17:21
Muito bom ...;)!! Parabéns!

Hug


De Pedro BdF a 31 de Janeiro de 2008 às 20:26
toma lá um vírus deste teu Pai que gosta muito de ti e não quer que te falte nada :)
e já sabes, qquer viruzito que arranje, nem que seja do minho com gajas esganiçadas e pares de moçoilas e moçoilos às voltas tontas, é teu, que eu gosto muito de ti.
o teu fã nº 2
eu


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