Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

#9 - carnaval

            “A Vida são dois dias e o Carnaval três.” Levantam-se desde já duas questões. Não só o Carnaval é longo demais, porque inevitavelmente com este horário ninguém vai conseguir aparecer nos dias todos, como fico sem saber quem é que faz o jantar no último dia.

            Confesso que não fiz a pesquisa necessária para escrever sobre o Carnaval mas não me parece muito esquisito que de um dia para o outro os homens tenham começado a marcar um dia para se mascararem. Basta andarmos de metro ou comboio e percebemos que diariamente várias mulheres abusam dos produtos que dispõem nas suas casa de banho. Não, não estou a falar de champôs.

Mas podemos teorizar sobre como tudo começou. Eu tenho a minha proposta e vou agora partilha-la com vocês. Aqui vai: Imagine-se um assaltante de bancos que se vestiu a rigor, riscas pretas e brancas e meia na cabeça, como é óbvio que todos os assaltantes se vestem, e que entrou no banco a que habitualmente vai depositar o seu ordenado de vadiagem. Entre olhares de lado e sorrisos murmurados, percorre o caminho delineado para os clientes se deslocarem de dinheiro em punho e aproxima-se do balcão. Quando ganha coragem, limpa uma gota de suor e dirige-se à senhora fardada. Obviamente isto é uma ficção. Se a vida são dois dias e o Carnaval três, o tempo médio de espera num banco são de cinco.

Ergue a arma e gesticula furioso que quer o dinheiro todo num saco e um ice tea sem gelo. A senhora responde-lhe calmamente que sem gelo vai ficar morno e que se quer dinheiro que o ganhe a trabalhar como toda a gente. O assaltante gesticula a arma mais um pouco, ainda mais frenético, e diz que não quer ser tratado assim numa instituição que conhece tão bem e onde já lhe ficaram com três canetas bic. A senhora do balcão franze os olhos e exclama “Senhor Fernandes! Não o reconheci! Hoje está esquisito, sabe? O nariz espalmado atrás da meia não o favorece nem um bocadinho.” O assaltante ao perceber que aquela imberbe sabia o nome que constava no seu bilhete de identidade começa forçosamente a tentar salvar a sua vida e o espaço livre que fica por preencher na cela que iria ocupar. “Ah, sabe! (sorri) isto foi na lavandaria! A roupa foi misturada com uma bandeira do boavista e ficou assim. A meia na cabeça é porque o meu cão me apanhou o gorro.” A senhora sorri. “Pois, sabe, eu de moda não percebo nada. Só vou mesmo a out-

lets ao domingo. As pessoas podiam era aparecer mais vezes cá assim giras como o senhor. Hoje em dia ninguém se diverte, sabe? Levam tudo a mal…” O assaltante já tinha “flutuado” para o carro da fuga.

Certo, se calhar podia estar mais verosímil, mas o que tem de normal ou curriqueiro um dia a população acordar de manhã e adoptar toda uma nova personalidade só porque “ninguém leva a mal”? Não é muito mais perceptível um assaltante conhecer uma bancária? Como queriam…

A expressão “é carnaval, ninguém leva a mal” só por si ligada à época já tem o condão de me irritar solenemente porque se eu levar com um balão de água numa omoplata levo a mal até se for de uma freira vestida de Rambo. Toda a faixa etária e otária dos 9 aos 18 que saiba desde já que este ditado popularucho a mim não me convence. Quero ver se tivesse explodido uma mala no metro na terça-feira se “era Carnaval” dessa maneira.  

Voz de anúncio espanhol a um Yogurt: “Amigos, se querem exorcizar o vosso lado homossexual esta é a época para o fazerem. Homens de todo o mundo, aproveitem esta época para soltarem o vosso lado travesti porque em nenhum outro dia ou local usar saia e fio dental é motivo de riso geral.” Não percebo isto também. Nunca me seduziu a ideia de usar soutien e ligas. Não sei, prefiro ver a usar. Também não faço tensões de por implantes de silicone, por exemplo. No entanto toda uma vasta secção de pessoas que já possuem uma idade e presença na sociedade de algum respeito acham piada a este “transformismo justificado”. A piada mesmo é que nunca, nunca, tiram o bigode. Os travestis deviam sentir-se insultados.

Mas para mim, sem dúvida nenhuma, a parte mais estúpida de mais este maravilhoso feriado desnecessário são os desfiles “à brasileira” que não faltam nas cidadelas labregas do nosso país. Amigos, organizadores e participantes destas paradas, no Brasil, de onde vem essa inspiração toda, está CALOR! Aqui, onde nós estamos, Portugal para os mais distraídos, está a CHOVER! ÁGUA! DE CIMA PARA BAIXO! EM VOCÊS! Pronto, era isso.

Como devem ter percebido, para mim Carnaval é dia em que serpentinas, confetis e traumas remetentes à “fase anal” podiam bem desaparecer. E respondendo à questão que ponho no primeiro parágrafo deste texto, já sei quem faz o jantar no terceiro e último dia de Carnaval, é um orgulhoso, alegre e profundamente freudiano travesti friorento.    

 

 

Guilherme Fonseca

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publicado por Guilherme Fonseca às 00:10
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Todas as Quintas o humorista Guilherme Fonseca publica um novo texto!

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