Quinta-feira, 6 de Março de 2008

#13 - estaciona-mos

            Prontos? Isto hoje é a abrir! Só espero não apanhar nenhum radar pelo caminho. Detesto ter de abrandar para outro qualquer passar a acelerar e ficar eu na foto com cara de chinês num anúncio da Fuji! E ainda bem que ainda nem falei nas lombas. 

Todos podemos concordar que há pessoas desnecessárias com as quais convivemos diariamente. Desde o condutor domingueiro que nos empata o caminho como se fizesse um safari a 20 quilómetros por hora, até ao coitado do estrangeiro que só consegue almoçar se distribuir papéis de videntes à saída do metro. Linha verde principalmente, porque a cor da linha tem de condizer com a cor dos dentes do vidente.

Então mas vocês querem ver que eu não sei estacionar o carro sozinho? Não tirei a carta? Não fui ao “código”? Não fui à “condução”? Estes nomes tinham de ser mais explícitos do que são? Para o exame não acordei cedo e fiquei rodeado de repetentes octogenários que ainda não perceberam que a condução é já tão palpável para eles como uma erecção? E que para isto nem comprimidos azuis resultam?

Vinte aulas de código e trinta de condução para estar a estacionar e vir um gajo com um boné ostentando o antigo e já extinto logótipo da tvi, um casaco de capuz lavado a lama da marca Skip, uma t-shirt da maratona contra o cancro da mama de 85 e umas calças de fato de treino moda olivais-shopping 91-92? Tu queres ver que eu não passei no exame e que não sei usar todo o mecanismo do carro sozinho, como tenho feito há 2 ANOS!? Não me quero fazer parecer um Fitipaldi, ou duplo de cinema tirado do filme “Bullit”, mas acho que já estacionei vezes suficientes em lugares normais e monótonos o suficiente para não ter que vir um gajo a correr abanando levemente um braço no ar como se dirigisse uma orquestra de miniatura em câmara lenta. Não me estás a ajudar, amigo! Com a droga que tens no sangue duvido que fora do carro consigas distinguir melhor as distâncias que eu sentado dentro do carro. De olhos fechados. Ou morto mesmo.

Porque não vais pedir esmola? O que estás a fazer não é pedir uma esmola disfarçada? A promessa mítica e urbana de que me vais riscar o carro não é fútil e vaga? Furar um pneu merece os 40 cêntimos que te vou dar para me deixares sossegado? É isso que vales? É isso que precisas? Não quero parecer chateado ou irritado em demasia, mas em Itália, quando lá fui há uns anos, vi um pedinte que não tinha braços até ao cotovelo nem pernas e que fazia malabarismo com 3 bolinhas pequenas. Sim, pensa nisso com mais calma. Foi o único pedinte até hoje a que dei esmola. Tu estás a agitar um jornal d’ A Bola no ar, em círculos nervosos, e a tentar merecer uma moeda enquanto me olhas como se fosse um enviado do SEF. Ou o Paraty que não marcou um penálti.

Não preciso de alguém que vem a correr no final da manobra para merecer 40 cêntimos. Quando de manhã calçar os sapatos vens atar o último atacador por mim? Quando ligar a televisão vens pôr mais alto por mim? Quando almoçar vens mexer o açúcar do café por mim?

Vamos tentar trabalhar em conjunto para teres um fim digno e talvez um pouco mais que 40 cêntimos na carteira. Sabes o que podias fazer? Com os teus dotes de distrair e confundir condutores sabes onde eras útil? Nas escolas de condução. Eu faço aqui o apelo que se levem arrumadores para as aulas de condução. Se o instruendo conseguir estacionar sem passar por cima dum pé deste espécimen, ou não bater em passeios com o pára-choques que tão amavelmente vinha de origem com o carro, está passado. As verdadeiras dificuldades de um condutor novato não são se “caraças, passo ou não este amarelo?” são, sem mais nem menos, “mas este gajo está mesmo a olhar para mim e para o meu carro, ou aquele olho é de vidro e ele está a afugentar uma mosca freneticamente”? Eu queria um destes no meu exame.

Toma nota (pode ser nesse mesmo jornal que tens na mão) de algumas outras coisas que poderás fazer como profissão, dado o teu “movimento” crónico de braço: tirar água de um poço mexendo uma manivela; fazer rodar máquinas de lavar; maestro numa orquestra de invisuais; brincar com um “diablo”; bater claras em castelo.  

Toma nota também de algumas profissões que deverias estar proibido de executar por lei: arrumador de “boeing’s 747”; taxista (se bem que te adaptarias bem ao estilo de condução); prostituto; e sem dúvida nenhuma: cirurgião, especialidade cardiologia.      

(Respirar fundo) Perdoem-me mas já desabafei. Da próxima vez que virem um arrumador lembrem-se deste texto, respirem fundo, ouçam como o vosso carro bate no de trás, respirem fundo novamente, rodem o volante na direcção oposta, vejam-no a rir entre dentes, batam no carro da frente, imaginem-no com o jornal d’A Bola no ânus, desliguem o motor, abram a carteira, dêem-lhe os 40 cêntimos que o fazem feliz. Até o podem tratar de “chefe”, eles parecem gostar, se bem que o nome de “chefe” não é muito correcto para quem dirige um circo de pulgas.

 

Guilherme Fonseca

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publicado por Guilherme Fonseca às 03:08
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2 comentários:
De nunojudas a 6 de Março de 2008 às 06:32
como te percebo lollol


De Eduardo Ramos a 6 de Março de 2008 às 11:18
A melhor denominação que já ouvi desses "espécimes", como lhes chamaste, foi inventada pelo Carlos Moura. Droguimetro .

Metem-me raiva e questiono-me se os atropelarmos, se somos sancionados por isso.


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