Quinta-feira, 13 de Março de 2008

#14 - mercado super

           Supermercados são sítios divertidos, temos de concordar. Sejam eles divertidos para quem lá vai apalpar fruta, numa tentativa efémera de dizer que são especialistas de renome, como até mesmo para o dono do hiper que enriquece a cada apitadela frenética de código de barras. Todos vivemos momentos familiares, alegres e joviais, passeando carrinhos e birras de crianças pelos corredores, fazendo escolhas, contas à vida e orçamentos para prestações de televisões.  

            Não podemos ainda discordar que um supermercado é um pequeno mundo no qual poderíamos perfeitamente viver sem qualquer problema de maior. Até mesmo com zombies à solta no interior, como diversos filmes já nos provaram cientificamente. Está lá tudo o que um ser humano do Séc. XXI precisa, a preços acessíveis e convidativos, embrulhado em papel transparente e fácil de abrir. A única coisa que pedimos é que a senhora que oferece os queijinhos em palitos não tenha sido mordida. Pelo menos para já, aqueles palitos até que vão ser uma bela arma contra ela.

            Mas como actualmente nenhum supermercado está povoado de mortos vivos, sem ser sentados nas caixas registadoras, não são esses seres bem dispostos que me trazem aqui hoje. Aquilo que me apetece coçar hoje é outro tema, um talvez passível de me transformar na Paula Bobone nas próximas linhas. Pergunta (algo retórica): O que vamos fazer num supermercado? Resposta (a puxar para o engraçadota): gastar dinheiro, endividarmo-nos, encher a dispensa, fazer passear uma mulher e filhos obesos, e consequentemente, ser português. Resposta (agora já um bocado séria): fazer as compras necessárias da casa.

O facto do hipermercado ser quase da nossa família, não podem discordar que secalhar até o visitam mais vezes que a vossa própria avó, não nos dá direitos adicionais nem regalias para nos comportarmos como se estivéssemos em casa. Já devem ter visto isto. Uma famelga abastada, numerosa e cheirosa, empurrado carrinhos como se estes tivessem o sufixo “de choque”, passeia-se pelo supermercado como tão bem sabem fazer. Os petizes, chegando à sua segunda casa que é o corredor 34 das bolachas, reencontram velhos amigos, e no seu canibalismo preferido, começam a enfardar “marias”, ou até mesmo “belgas”. Atenção, aquelas bolachas estavam na prateleira. Fechadas. Arrumadas. Agora estão misturadas no quimo desta criança aspiradora. Assim sendo, questão da crónica de hoje: É socialmente aceitável comer-se produtos do supermercado, dentro do próprio supermercado antes de se ter pago?

            Aqui a discussão começa. Não a da família, porque a de se levam ou não um jogo ao “mais novo” já vem desde o carro, começa sim a discussão que eu aqui trouxe. Vocês poderão alegar que no final do percurso pelos corredores e já empilhando produtos no tapete da caixa 25, eles mostraram o pacote e pagaram as bolachas. Sim, não estou a dizer que esta família tem más intenções. De maneira nenhuma. Eles até só comeram um queijinho grátis cada um, são boas pessoas. Mas será que se pode fazer isto? Ir comendo e pagar no fim só o pacote?

            A mim parece-me um pouco estúpido, se querem que vos diga. Pensem um bocado, vocês estão a pagar o quê? O vosso dinheiro paga o quê mesmo? Reflictam e vão ver que estão pagar plástico, papel, cartão, um lanche n melhor das hipóteses. Nada mais. Que sentido faz perder horas da nossa vida a percorrer aquela lista de produtos interminável e mental, porque nos esquecemos sempre de passar para papel mais uma vez, por corredores e corredores para no fim pagar os pacotes? Imagino sempre esta gente ao fim do dia, quando chegam a casa, a reordenar a agenda para lá voltarem no dia seguinte. Porque? Porque comeram tudo e só sobraram os pacotes no final!

            Seremos assim tão obesos e sôfregos que não aguentamos os produtos até casa? Ou mesmo até à caixa? Os publicitários são assim tão bons que não aguentamos a bolacha dentro do pacote 20 metros? Não percebo. Tentei arranjar outros locais em que fizéssemos este tipo de jogo, mas foi difícil. Numa sapataria já aconteceu pagarmos os sapatos com eles já calçados, é verdade. Mas os sapatos duram, e uma bolacha nunca aqueceu os pés a ninguém. Imaginem este tipo de funcionamento então numa funerária? Seria possível escolher um caixão, já sem pulsação? Imaginem-se com uma prostituta? Faziam isso também? Será que foi assim que nasceu a ejaculação precoce?

            O meu conselho para o leitor que me acompanhou e que de facto sofre deste síndrome é que comece a jogar um simples jogo que vos vou ensinar, e deixe a fome em paz por mais uma viagem até casa de sacos cheios.

O jogo é simples e é para ser jogado num supermercado perto de si. Quando for até à caixa para pagar leve sempre dois, apenas dois produtos. Uma caixa de 6 preservativos será o primeiro, e sempre obrigatório. Aqui ganham o sorriso discreto do caixa e a sua atenção. A diversão no jogo está no segundo objecto, na perícia da escolha e na reacção que querem provocar. Combinem a caixa de preservativos com outro qualquer produto do supermercado e vejam as reacções. Por exemplo, uma caixa de preservativos e uma garrafa de vinho dariam poucos pontos. O caixa vai sorrir e dizer: “Vai haver festa, hein?”. Fraco. Agora experimentem excitar a vossa criatividade para espantarem e assustarem o caixa com produtos singulares. Dou duas sugestões. Primeiro, uma caixa de preservativos e um melão. Quando pousarem os produtos pisquem o olho ao caixa. Aposto 5 euros em como ele afasta lentamente a cadeira de rodinhas para trás. Outra, e o meu trunfo secreto. Aproximem-se da caixa a coxear, lentamente. Depois, lambendo os lábios, pousem uma caixa de preservativos, vejam-nos sorrir desprevenidos, depois pousem o segundo objecto, uma espátula de salada, vulgo saladeira. Vejam como ele arregala os olhos em pânico e fica momentaneamente perdido no universo.

 

Guilherme Fonseca

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publicado por Guilherme Fonseca às 02:59
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