Quinta-feira, 20 de Março de 2008

#15 - eu? eu quem?

           Quero começar por dizer que famoso é Jesus Cristo. E, talvez vendo bem as coisas, o Elvis. Esses sim são “famosos” no verdadeiro sentido da palavra, reconhecíveis a milhas de distância (principalmente o Elvis no final da carreira), estampados em t-shirts e cujos nomes já foram gritados por milhares de pessoas eufóricas de cuecas na mão. Sim, fiz pesquisa na “iurd”.

            Mas mesmo assim não podemos deixar de concordar que aparecer na televisão duas vezes me faz mais susceptível de ser reconhecido na rua. Esta crónica é egocentricamente escrita sobre o meu primeiro encontro com alguém que me reconheceu na rua como “o comediante que até disse umas javardices na rtp2, naquele programa do da boina, gordinho e de barba, que estava bem melhor no programa dos pasteis”.

            Não que isso me faça sentir melhor de alguma forma, mas lembrem-se que sendo comediante de stand-up é o público que tem de gostar e que tem de se rir. É para ele que trabalho. Se tudo correr como planeado e esperado, riem-se, de mim ou para mim, e depois lembram-se da minha cara, repetem punches ou palavras e divertem-se, porque é isso que quero fazer, entreter. Isso e estacionar de olhos fechados, mas para isso não quero público. É melhor que ninguém me veja treinar.

            Esta primeira vez, e única diga-se, que fui reconhecido na rua a partir das minhas prestações televisivas foi no bairro alto às 2 da manhã, dentro de um bar chamado “As Primas”. A verdade é que este cenário não abona muito a favor da minha história, visto que alguém com 3.0 de alcoolémia facilmente reconhece um amigo de infância na mesa de matraquilhos que lá está. Mas de copo na mão, ou pousado ao lado do cinzeiro dessa mesa, lá estava eu a fazer valer os calos que tenho nas mãos.

Entre uma defesa apertada e um remate certeiro contra a madeira, uma desconhecida parou ao meu lado e fez a pergunta que eu menos estava a espera nessa noite: “Não és aquele que foi à televisão, ao programa da dois, de comédia?”. Eu, educado que sou, não menti e sorrindo para ela disse que sim, que tinha acertado na pessoa que procurava. Neste singular e virgem momento a minha mente começou a divagar. Pensei mesmo, e confesso de joelhos e dorido da posição em que estou, que ela queria um autógrafo, confesso. Ela estava sorridente e a pergunta que me disparou não fazia por menos. Era eu aquele da televisão que ela tinha visto. Eu estava na mesma sala que ela. Mas como fui estúpido e convencido.

Ela parou uns segundos a olhar para mim e disse “Adoro reconhecer figuras públicas na rua”. Eu não soube o que dizer. Primeiro porque as cervejas que ela tinha no sangue tiraram o “l” à palavra “pública”, o que me distraio um bocado. Segundo porque ela ficou calada a seguir a isso. Não disse mais nada de mim, da minha comédia, do programa que tinha visto ou mesma da cor da televisão que tinha na sala. Ficou de olhos vidrados em mim, como se eu fosse de 2 milímetros de espessura. Eu, corajoso e nervoso, esperando que aquele encontro não fosse só um concurso de “olhares-fixos”, quebrei o gelo e o silêncio de uma vez só e disse: “Mas ao menos gostaste do programa?” esperando que ela por me ter reconhecido e se ter dado ao trabalho de me abordar iria desenvolver a conversa. Ela surpreendeu-me e respondeu: “Ya… deu pa’ rir.”. E simplesmente virou costas a sorrir.

Pronto, para primeiro encontro com alguém na rua não me parece assim tão mau. Podia ter apanhado alguém que joga golfe e que indignado e irritado com o meu texto me enfiava os avançados da mesa de matraquilhos na uretra dizendo “se por jogar golfe sou um cão, experimenta aí essa mesinha de matrecos, ó seinfeld!” Mas não, apanhei uma simpática rapariga que de facto se esforçava por conhecer figuras públicas sem ter de facto de gostar do que viu essas figuras públicas fazer. Reforço mais uma vez o “l” em públicas. Não bebi cerveja nenhuma.

Assim sendo ficam a conhecer mais algumas facetas da minha vida. Que vou às “Primas” no bairro alto; que gosto de jogar matraquilhos mas que se for importunado por “reconhecedores de figuras públicas” paro o jogo de bom gosto; que sou educado demais; que sou famoso para a minha família e pouco mais que isso; e que graças a deus estou sossegado na minha rua e em minha casa sem ser perseguido e sem deixar de fazer aquilo que gosto em frente a sucessivos públicos bem dispostos. A conclusão disto é que se me virem na rua podem optar por não me dizer nada mesmo. Virem-se apenas para com quem estão e digam “Aquele gajo joga muita bem matrecos. E parece que faz comédia também…”

 

Guilherme Fonseca

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Todas as Quintas o humorista Guilherme Fonseca publica um novo texto!

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