Quinta-feira, 3 de Abril de 2008

#17 - "corridinhas"

            Taxistas embriagados atropelam crianças. Pedestres manifestam-se em massa contra precárias sinalizações e condições das passadeiras. Condutores em excesso de velocidade não pagam multas nem respeitam prioridades ou regras. Adolescentes sem carta atropelam crianças. Isto é um dia normal, enfadonho e monótono no nosso dia-a-dia. Eu, no fim de tudo, gosto de tirar o cd do “Grand Theft Auto” e desligar a Playstation. E jogo cada vez melhor.

             A estrada, vulgo via pública, é um local onde várias pessoas se deslocam, seja dentro de um chassis de metal duro e repleto de arestas, seja a pé, de sacos na mão ou conduzindo carrinhos-de-bébé. No entanto é fácil perceber, quando se anda na rua, que há uma luta territorial gigantesca a decorrer, em que, consequentemente, um dos combatentes vai ganhar. Não que os pedestres sejam estúpidos, são apenas corajosos e gostam de arriscar. Pronto, os pedestres são estúpidos. Bastante estúpidos.

            Conduzo todos os dias e devo admitir que uma infância fervorosa e calosa de jogos de vídeo não me preparou para o que encontro diariamente na rua. É um festival de corpos que se atravessam na nossa frente, o “jogador”, e que se batermos, vamos sem dúvida perder uma “vida”. Talvez duas se acertarmos em cheio numa bacia marota.

            Não percebo, sinceramente, como num país europeu avançado conseguimos comportarmo-nos como pedestres na Etiópia. Pensemos. É que lá praticamente não existem carros e se existirem têm um fantástico motor movido a cenouras e que deixa a ritmada e ocasional poia na estrada. É normal que os peões terceiro-mundistas sejam destemidos e corajosos e se atirem para o meio da estrada como se fosse um colchão ou um dos jogos do “Nunca digas Banzay”, porque um cavalo nunca atropelou ninguém. Aqui, em território “tuga” não se justifica termos este tipo de kamikases, porque os carros matam. Parece.

            Sim, estou a culpabilizar os peões portugueses por maior parte dos atropelamentos. É verdade que os nossos condutores são uma espécie rara que merece atenção. Parece que temos de justificar ser dos países europeus onde mais carros se compram. Vamos a pisar esses pedais, amigos, a Citrôen ainda tem fábricas para abrir por cá. Querem continuar desempregados, é? Mostrem-lhes o que conseguimos fazer com uma garrafinha de Whisky, um Renault Clio e uma parede. Mas não consigo perceber como podemos ser tão irresponsáveis e estúpidos quando andamos a pé na estrada. Ou somos profundamente esquecidos e não nos lembramos que existem ali criaturas de toneladas movidas a gasolina ou então julgamos que “até conseguimos dar a corridinha”. A “corridinha” é das coisas que mais vejo quando conduzo. Arrisco até a dizer, mais que semáforos.

Um peão olha para os dois lados, não vê ninguém e atravessa calmamente. Se tiver um sinal luminoso a coordenar a partida de uma margem à outra da estrada, espera calmamente. É tudo perfeito, mas no resto do mundo! Cá o peão olha para os dois lados, faz uma estimativa da velocidade versus espaço a percorrer dos carros que aí vêm e depois faz uma “corridinha” à Obikwelu até ao outro lado. Se não conseguir chegar a tempo, travamos e ele lá faz o pequeno “Heil Hitler” com a mão pedindo desculpa por ter sido descuidado nas contas.

O que mais me espanta é quando estou perto de atropelar uns destes pedestres loucos e reparo que tem nada mais, nada menos, que 400 anos de idade! O que se passa na nossa terceira idade que temos pedestres a centímetros de morrerem, sem demonstrarem qualquer amor pela sua integridade física? Os genéricos afectam-lhes o julgamento? Ou partirem uma anca é um bom motivo para terem conversa numa sala de espera? Algo está podre no reino da condução portuguesa.

Que podemos fazer em relação a isto? Eu tenho algumas ideias simples. Primeiro, acabar com os sinais luminosos para peões. Não me parece que alguém lhes esteja a dar atenção e assim sempre se poupa esse metal para outras coisas. Como matrículas, capôs amolgados e, quem sabe, talas de correcção de pernas e costelas. Segundo, começar a deixar de andar a pé. Não que eu tenha medo dos carros ou também dê a minha ocasional “corridinha”, mas porque não quero levar com um corpo voador de um octogenário na cabeça. Aleija e suja tudo. Terceiro, começar um sistema de contagem de pontos. Quem se lembra do Carmagedon? Começamos a contar pontos por cada bacia que esmigalharmos. Idosos e crianças contam mais, como os recentes taxistas embriagados nos provaram no Porto.

Quando começarmos a fazer pontaria ao invés de ter cuidado e atentarmos pela saúde deste pedestres tresloucados vamos conseguir que eles tenham tanto medo que parem de ser estúpidos. Parece-me uma boa solução. Ou então começamos a respeitar as regras luminosas e espaciais quando andamos a pé, mas esta é capaz de ser mais difícil e trabalhosa. Agora se me permitem, vou ligar a novamente a Playstation. Tenho um jogo novo.

     

 

Guilherme Fonseca

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publicado por Guilherme Fonseca às 00:28
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