Quinta-feira, 24 de Abril de 2008

#20 - comunismo musical

            Das sete artes principais, a história fez com que umas fossem mais velhas que outras, outras mais únicas e originais que umas, outras mais populares que outras. A história manda e nisso não podemos fazer greve nem mostrar lenços brancos. Mas das sete mundialmente aceites e reconhecidas vou falar aqui apenas de uma em específico, a música.

            Muitos historiadores acreditam que foi através da música, dos sons em simbiose e concordância, que nasceu a comunicação entre seres humanos. Eu não concordo. Eu acho que os historiadores deviam visitar mais casas de banho públicas. Essa comunicação é feita através de “traques”, “puns”, “peidos”. É notória a forma como os seres comunicam, seja para perguntar as horas, seja para pedir o rolo de papel higiénico, através da soltura de ar comprimido. Pena que para quem não entenda o dialecto parecerá só uma grande porcaria. O que me atormenta aqui é que o “traque” pode também ser considerado uma forma de música original, desrespeitada e marginal. Se não for, aqueles a quem disse um dia que era compositor, que me perdoem.

            Independentemente de quem tem razão aqui, se os historiadores se o meu professor de música, esta arte é das mais importantes para nós seres humanos em termos emocionais. Todos nós choramos, rimos, crescemos, criamos, relaxamos ou nos enervamos com música. É camaleónica e evolutiva, não morre, cresce com a humanidade. Seja um djambé numa praia ou um monte de “pastilhados” numa rave, a música está em todos nós. Pronto, talvez menos nos “pastilhados” do que nos outros, porque estes de manhã vão acordar sem se lembrarem da música que ouviram ou do seu primeiro nome.

            Esta crónica não serve no entanto para discutir estilos ou qualidades de música. Não sou ninguém no mundo desta arte se não um gigantesco ignorante com poucos cd’s em casa. Aquilo de que quero falar é da maneira um pouco “política” como alguns de nós impomos ou dispomos a nossa música aos outros. É simples. Eu defendo que alguns frequentadores de “transportes públicos” têm problemas em assimilar a segunda metade do desígnio do meio de deslocação onde estão.

            A minha faculdade é na Amadora o que me permite, ou obriga, dependendo do vosso comodismo, a deslocar-me todos os dias a partir de Lisboa, usando o meu amado combinado de comboio e metro. Não é um caminho longo mas dá para ler um pouco ou acordar de vez, depois de ser assaltado. Assim ou com café. Mas o que tem de boa esta viagem também é a interacção e a troca de conhecimentos e culturas que ocorre no percurso. A música está bastante presente neste período do meu dia porque não a consigo evitar de maneira nenhuma. Parece que a evolução musical foi acompanhada por outra evolução, mais subtil e camuflada, que só me “bateu em força” no comboio para a amadora nas minhas manhãs. Isto literalmente se a evolução estiver na mão de um gajo que queira as minhas moedas. Esta evolução destrutiva e apocalíptica de que falo é a dos telemóveis.

            A capacidade comunicativa destes aparelhos, vulgo “toques de aviso de recepção de chamadas”, há uns anos era simples, monocórdica e repetitiva. Eram uma espécie de “Ana Malhoa”, já que estamos a falar de música. Actualmente é frenética, barulhenta e invasiva. Um “Costa do Castelo By Night!”, para quem estava com dificuldade em perceber. Assim sendo, e dado o panorama actual, a música em locais públicos podia até ser ultrapassável, o problema é que uma percentagem demasiado grande do universo de utilizadores de telemóveis com leitor de mp3 não gosta de usar Headphones!

            Não sei de onde parte o problema, de onde vem a reticência perante um objecto tão simples e amigável como um headphone. Pode ser do incómodo. Poderia ser porque aquilo até é chato e alguns causam de facto irritações na orelha. Poderia ser também da cera que fica nos headphones depois de utilizados. De facto é chato dizermos “Eia, ouve lá esta muita fixe, man!” e estender um headphone jocoso e amarelado a outra pessoa. Os cenários apresentados são fortes, mas o que é mais chato ainda do que partilhar a vossa cera ou vos ver coçar os ouvidos é ouvir a vossa Kizomba, Techno, Acid Rock, Rap, Hip Hop, Pop-lolly (acabei de inventar) quando não pedi. Foram vocês que fizeram download dessa “faixa”, eu não tenho de a ouvir com vocês, certo? Não vos leio o meu livro em voz alta, pois não?

            Quando falei de “políticas” na audição de música foi porque considero estes indivíduos uns “comunas musicais” autênticos. No fundo é boa vontade mas eu não quero ouvir a vossa música, obrigado. Não partilhem ondas sonoras com quem não as pediu porque numa carruagem de 40 pessoas, 5% devem gostar assim tanto como vocês do MC ChUpAMoSdAmA! E desses 5%, 4.9% estão a dormir. O engraçado disto tudo são aqueles que usam mesmo os headphones. Parabéns, um biscoito e uma festa a estes poucos. O problema, e juro que isto é verdade, é que passam o fio por trás da orelha e apenas, apenas, penduram o headphone ao lado da orelha, sendo que este fica a balançar ao lado do aparelho auditivo, livre e contente. Mesmo assim, e comprando headphones, conseguem partilhar a sua música com o mundo. Os queridos.

            A música que quero ouvir, vou atrás dela. Procuro-a e usufruo-a como me apetece. As vossas influências políticas e própria divulgação a partir da música, sejam ditadores, comunistas, ou anarcas, é-me indiferente e incomodativa. Não quero saber do que vocês ouvem. A música se tivesse sido forçada ao longo da história da humanidade como vocês o fazem, não seria uma das sete divinais artes. Seria um método de tortura chinesa. Baixem o volume aos telemóveis. Se mesmo assim esse botão mágico estiver avariado, não ponham a tocar MC ChUpAMoSdAmA! Falo pela humanidade quando digo que a música dele é tão boa como a escolha do nome artistico. Se não tiverem mais música, deixo só um aviso. Livrem-se de se peidarem ao meu lado.  

                       

 

            Guilherme Fonseca

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