Quinta-feira, 1 de Maio de 2008

#21 - i(n)de cisos

           Se tudo corria bem porque tinha de acontecer isto agora? A organização estava boa. O planeamento bem ordenado e de acordo com o esperado. Estava tudo a correr “às mil maravilhas” (mesmo tendo perdido a lista das “maravilhas” e não sabendo que milhar é este, desculpem o uso desleixado da expressão). Estava tudo perfeito, parecia tão pronto, acabado, correcto e funcional. Expliquem-me porque raio é que 20 anos depois da bela data em que nasci, me nascem mais quatro dentes no fundo da boca?
            Não percebo absolutamente nada da anatomia humana, confesso. Há vários mistérios sombrios que me assustam e afastam como um católico devoto e tradicional de uma “sex shop” no meio da Almirante Reis. O funcionamento desta bela máquina que nos move é tão difícil de compreender e de acompanhar que dá azo a épocas embaraçosas e frustrantes no nosso percurso pelo planeta. Para apenas mencionar algumas, sem vos recalcar traumas profundos de propósito, são vergonhas como aquelas “duras” e “inesperadas” tardes “arrebitadas” de verão durante uma aula de ginástica no secundário, que levaram consequentemente aos calos nas mãos. Como algumas daquelas negas constantes na vida adulta, com claro, falta de lenços para assoar durante uma reunião importante que decidirá a vossa carreira. Ou velhices problemáticas onde não faltam obviamente aqueles ataques de intestino a meio da missa de domingo. Ou qualquer outra altura do dia, confessemos.
Estas são algumas das várias questões biológicas humanas que me assombram e me levam a perguntar constantemente: “o que dei a Ciências na escola de tão importante que consumiu todo o tempo útil e não deu para me falarem deste tema que tanto precisei?”. Tenho algumas dúvidas, senhores professores, e vou colocá-las mesmo que não obtenha resposta. Não sei porque temos pêlos púbicos, por exemplo. Porque razão, numa área tão importante para a nossa imediata felicidade, nos temos de preocupar com uma farfalhuda, chata e persistente penugem. Para protecção? Não me sinto protegido. Enfeite? Eu já vi filmes porno dos anos 60 com hippies, esta nem respondo. Outra, não sei porque temos apêndice se este não serve para absolutamente nada senão para rebentar, dar dores, uma cicatriz sexy, uma semana a comer gelados e uma conta de hospital. Porque colocaram uma “bomba relógio” ao lado do nosso fígado, fica por responder. Não sei também porque bocejamos quando vemos alguém bocejar. Que parte de nós é invejosa até no cansaço do próximo? É o nosso corpo a tentar “meter conversa”? Não percebo. E mais importante de tudo, não sei porque tenho de acordar às 8.30h da manhã para urinar, quando pus o despertador para as 8.45h e agora quando voltar da casa de banho já não vai dar para dormir mais e acabei de perder 15 minutos preciosos de sono, que por acaso me apeteciam mesmo muito dormir!
Mas o pior ainda estava para vir. A “piéce de resistance” no sadismo que é ter um corpo humano ainda estava a ser conjecturada e preparada. Quando um adulto saudável julga que já tem a vida preparada e lançada em termos corporais, que na sua adolescência já teve erecções suficientes a meio de pacatos dias de praia para as controlar, o seu corpo, mais propriamente a sua boca, resolve lançar um grito de guerra e começar a invadir espaços onde não cabem mais dentes! Uma espécie de “planeamento familiar” dentário à “chinesa”, num sobre populado país de molares.
Se tudo estava perfeito até agora porque vieram mais estes quatro pedaços de marfim doloroso tentar entrar num elevador onde já se estava apertado? Porquê? Eu conseguia comer! Eu conseguia mastigar! Eu conseguia ter uma vida digestiva normal! De onde vêm estes dentes “non gratos” que julgam que podem chegar aqui e sentar-se no sofá com os pés em cima da mesa? Algum dentista me explica isto? Ou estão ocupados em fazer os exames outra vez porque não entraram por uma décima em medicina? Pronto, fui bruto. Mas lembrem-se que são vocês que sugerem alegres e sorridentes que se “serre o último dente ao meio para arranjar espaço para esse nascer”. Seus sádicos sacanas.
Não gosto das dores. Não gosto do incómodo. Não gosto de falar com a dicção “prisão de ventre” de um jogador de futebol num anúncio de televisão. Ou de um lutador de boxe de maxilar deslocado. Não gosto de mastigar como um koala. Não gosto de não ter sido avisado pelo meu corpo que estes dentes estavam ai a chegar. Um telefonema? Um e-mail? Um grito amigável de chegada? Não. Uma entrada em grande pela porta das traseiras.
Imaginem que estão a dar um jantar a amigos em vossa casa. Tudo corre bem, calmamente, alegremente, com recordações de histórias engraçadas e nostálgicas. A comida está boa, a conversa ainda melhor, apetece-vos comer com mais calma para saborear a companhia e a conversa. Depois de 3 horas de jantar, 3 garrafas de moscatel e 47 histórias embaraçosas da nossa infância, a campainha toca. De um momento para o outro, aparecem à vossa porta aqueles quatros gajos do vosso emprego que só dizem “bosta” a toda a hora, sempre ao lado da máquina do café a contar anedotas e trocadilhos parvos que vocês detestam e já ouviram milhares de vezes. Aqueles quatro técnicos de informática virgens, que gostam de passar a noite a matar orcs num universo paralelo e, claro, digital. Esses gajos ouviram falar do vosso jantar e agora querem sentar-se um bocado para verem as “gajas que por aqui poisam”, até porque por acaso, “até já se comia qualquer coisa”. A ordem natural das coisas foi interrompida, aquele serão, aquele período fantástico e calmo que estavam a curtir imenso, agora está destruído, desregulado. Digam-me por favor, quando é que estes quatro dentes caem podres de bêbados para trás do meu sofá e deixam de me chatear o juízo… 
 
Guilherme Fonseca
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publicado por Guilherme Fonseca às 00:05
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Todas as Quintas o humorista Guilherme Fonseca publica um novo texto!

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