Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

#22 - epiderme neutra

           Eu sei que mais homens passam por isto. Não sou nenhum orador especial para o nosso sexo, mas eu tenho contactos. Eu sei que não sou só eu que sofro, que sou perseguido e mal tratado por elas. Eu sei que mais homens que namoram ou são mesmo casados passam por isto com as respectivas “caras metade”. Eu sei que vocês me compreendem. Proponho talvez uma roda de cadeiras para partilharmos experiências. Ou uma tertúlia de conversa para nos ajudar-mos. Pronto, é só este texto então. Mas eu sei que vocês passam por isto de que vou falar. Eu sei, ou então não me quero sentir sozinho no mundo.
            Isto já vos deve ter acontecido. Vocês estão com a vossa “mais que tudo”, aquela que vos “acelera o coração”, que vos “completa e faz crescer”, a vossa “companheira eterna e amada”, mas de repente, sem aviso prévio, descobrem que essa “maníaca psicopata” não aguenta e tem de acabar sempre a fazer a mesma coisa. Quantas vezes vos aconteceu estarem a namorar, mas namorar como se faz quando estão apenas a alguns centímetros um do outro, abraçados a partilhar hálitos e estrabismo, e ela começar lentamente a não vos ouvir. Ela já não responde. Tem os olhos fixos na vossa cara. Vocês não percebem o que se passa. Estão confusos e perdidos, porque tudo estava bem há segundos atrás. Estão ali abraçados, provavelmente com uma erecção senão não estariam a dar atenção à vossa companhia, mas estão de olhar fixo, frente a frente. Julgavam vocês que a partilhar um momento de compaixão e amor, daqueles eternizados em obras de arte e em músicas lamechas, quando ela deixou de vos ouvir. Responde agora por grunhidos e não tira os olhos da vossa cara. “Hum hum” e o olhar focado na vossa bochecha. Pois, meus amigos, a verdade é que ela está a medir forças com um ponto negro.
            Não percebo a fixação das mulheres pelos pontos negros. Obviamente isto é algo de que vocês tiveram treino intensivo de defesa e que nós homens nem sonhamos que existe. Convivemos com eles pacificamente e vocês fizeram uma jura de os matar a todos. Ou pelo menos desalojar, porque é isso que vocês querem fazer. Ficam possuídas se não tirarem aquele ser microscópico do nosso nariz e nós passamos apenas a obstáculo no meio de uma guerra. Somos um daqueles prédios abandonados e semi-destruídos em terreno de guerra que alberga o nazi miniatura que vocês querem fuzilar.
            Várias discussões podem surgir desta situação, obviamente. Ela agora já não pensa em mais nada senão tirar esse ponto negro, “enorme” como ela o apelida, e nós sabemos que isso vai doer. Porque doí, muito mesmo. São duas unhas arranjadas e com horas de “manicura” em cima, a espremer um milímetro de pele, com força. E vocês não só são maquiavélicas querendo assassinar algo invisível a olho nu (masculino diga-se, porque vocês sabem bem onde ele está) como ainda nos apelidam de “meninas”, porque “se julgamos que isto é doer, temos é de depilar uma virilha.” Eu não quero depilar um virilha. Aliás quero tanto depilar uma virilha como quero que um cão de porte médio me mastigue um testículo. Ou então, quero tanto isso como que a minha namorada me esprema as costas num calmo e sereno dia de praia.
            Esse é o outro alvo delas. Dias de praia e costas desnudas de alguém que jogou 2 horas de futebol, deu 13 mergulhos na água gelada de pénis encolhido e agora quer descansar. É nesse momento mágico que as unhas se voltam a encontrar com um milímetro de pele entre elas. O pior é o que se segue. Ela, depois da nossa relutância e dor (não partilhada, “suas meninas”), vai querer mostrar os despojos de guerra para provar que não é maluca. Ela lá estende a unha firmemente dizendo “Vês? Vês como é enorme?”. Mas nós, como é óbvio, não vemos absolutamente nada. É só uma unha, normal, sem nada “enorme”, sem ser o preço de manicura. Perplexos e confusos vamos dizer que sim. Que é enorme. Concordamos com o inimigo, sim, mas apenas para que não surja a hipótese de ela procurar e arrancar outro para nos mostrar melhor o que quis dizer.
            As relações amorosas são fantásticas e mágicas na sua plenitude, mas foram os pontos negros vieram lixar o esquema todo. É a melhor maneira de alguém perder a “vontade” toda. Eu até acredito que muitas mulheres usem o esquema do “ponto negro” para nos mandar… “acalmar”. Porque não conseguimos nós, machos da espécie, ver este pequeno ser intitulado politica e correctamente “ponto negro”, e elas conseguem? Porquê? Ou terão elas olhos super desenvolvidos que lhes permitem focar a altas distâncias para ver objectos ou partes do corpo demasiado pequenas? (Uma piada sobre tamanhos de pénis impunha-se aqui. Façam-na vocês mesmas, senhoras. Pensem na praia novamente se ajudar.).
            Eu acho que este flagelo das vidas amorosas modernas tem de acabar. Nós não temos nenhum problema com os pontos negros. Se vocês mulheres o têm, matem os vossos. Nós homens somos a partir da data deste texto, terreno neutro na vossa guerra! Sim, é verdade! Eu desde que comecei a escrever já abri dois campos de refugiados na minha testa, região oeste. Pela paz, na nossa epiderme! A virilha que o diga.
 
Guilherme Fonseca
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publicado por Guilherme Fonseca às 00:04
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1 comentário:
De Pai a 8 de Maio de 2008 às 19:09
Sou completamente solidário.
Abaixo as atrocidades anti pontos negros.
Ah, e parabéns, Guilherme, a tua escrita está cada vez mais escorreita e consegues fazer-me rir inesperadamente, que é a melhor gargalhada, porque não estamos à espera.
Abreijos do teu Pai cheio de orgulho de o ser.


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