Quinta-feira, 22 de Maio de 2008

#24 - não desculpo

            Eu sou da geração “rasca”, da geração do “Dragon Ball”, do “A Team – Esquadrão Classe A”, dos “Power Rangers”, das “Marés Vivas”, das “Tartarugas Ninja”, do “Denver”, do “MacGuiver”, do “Bueréré”, da Cidade Fm com locução de brasileiros, do Bollycao simples e saboroso, dos Limp Bizkit, dos Guano Apes, do Eminem, do Benfica que não ficava em quarto lugar, do Sporting que nem em quarto lugar ficava, do “Sonic”, do “Super Mário”, da Mega drive e do Game Boy grande e pesado, das cartas “Magic”, dos cromos na caderneta, dos “Tazos” nas batatas fritas e do “Diablo” no telhado da vizinha. Eu, senhor Primeiro Ministro, tenho 21 anos e apesar de ser da geração a que todos chamam de “rasca”, minada de “más influências” e uma “ignorância enorme”, não era capaz de usar a desculpa do “não sabia que não podia, desculpe!” ao vivo na televisão como o senhor fez.

            Em Dezembro aprovou-se e pôs-se em prática uma lei que proíbe fumar em locais públicos que não tenham condições básicas de ventilação para limpar o ar, esse grande “porcalhão”. Eu sou completamente a favor desta lei. Sempre fui, mas confesso que só tive coragem de o dizer publicamente agora porque milhares de fumadores enervados andavam a marginalizar a opinião pública com os seus gritos de revolta, ainda não há muito tempo. Debates em directo na televisão, crónicas jornalísticas, posts em blogues, tatuagens nas nádegas, eram várias as birras constantes de diversos fumadores por esse Portugal fora. Agora estão calados e uma de três coisas pode ter acontecido. Ou se resignaram, ou foram presos por fumar onde não deviam ou caíram para o lado com falta de nicotina. As hipóteses não me parecem animadoras.
            Mas não estou a escrever hoje para bater em geral nos fumadores, vocês já fazem isso a vocês mesmos quando se levantam de manhã e fumam imediatamente um cigarro antes de sequer dar um “bom dia”. Estou a escrever porque reconheço o que é um vício, também os tenho. Aliás, tenho dois, muito simples e que me trazem felicidade como suponho que 18 cêntimos de papel enrolado e tabaco desfiado vos trazem. Os meus são Café e Cinema. A questão é que nenhum deste é prejudicial para quem me rodeia. O café dá-me energia, certo, mas não vou usar ninguém como passadeira de exercício, e o cinema só é prejudicial para quem me rodeia se estiverem na mesma sala que eu a falar ao telefone num tom de voz que se pode ouvir em Kualalumpur.
Agora, Senhor Engenheiro Sócrates, tendo ambos falado dos nossos vícios, puxe do seu cigarrinho e acompanhe-me neste parágrafo sobre como dar uma boa desculpa, se faz favor. Você fumou um cigarro num avião. Há quem faça coisas piores, a verdade seja dita. E também quem faça melhores, vistas bem as coisas nas casas de banho. Mas você foi apanhado e teve de se desembrulhar da situação. Esta é a realidade dos factos. A maneira como resolveu safar-se da situação é que me parece ridícula e insultuosa. Sim insultuosa, porque levar a sério o que nos disse é aceitar que nos chame de estúpidos. Se quer usar uma desculpa, experimente usar uma que uma criança de 3 anos não saiba de cor. “Não fui eu!”, “eu nem gosto disso!”, “nem estava aqui”, “foi ele!” ou “juro, juro, juro, juro!” são alguns clássicos funcionais e bastante bons de serem utilizados, mas numa creche. O que o senhor optou por usar é um pouco mais evoluído e popular como desculpa mas ridículo de ser usado na televisão, sem se estar embriagado. “Não sabia que não podia, desculpe!”: foi isto que optou por dizer. Nem tenho palavras, senhor Primeiro Ministro. Tanto debate e manifestação contra e não sabe inventar e usar uma desculpa? Julga que a nação é um polícia de plantão, cansado e sonolento, às quatro da manhã em frente a um sinal vermelho que “papa” essa desculpa? Vamos pensar melhor nas coisas, sim? Fume outro cigarro se precisar, são só mais dois parágrafos.  
Depois disto tudo, e de consciência tranquila com a sua desculpa que eu bem o vi sorrir, fez aquilo que todos os políticos têm como vício quando estão necessitados de atenção, fazer promessas. O que poderia você prometer neste momento da sua vida e com 7 câmaras na sua cara a “zommar” aquele ponto negro maroto? Que iria deixar de fumar. Bravo, senhor Primeiro Ministro. Arrojado sem deixar de ter um pequeno e leve toque cómico. “Prometo deixar de fumar.” A promessa ficou feita e o seu nome limpinho como o ar do seu avião fretado.
Há limites até quando nos sentimos enrascados e temos de nos desculpar ou safar de uma situação embaraçosa. Mas o senhor conseguiu bater todos os recordes morais e desculpar-se de algo estupidamente ilegal com um sorriso, uma má desculpa e uma promessa impossível de levar a sério. Só me resta dar-lhes os parabéns. “Porquê”, ouço-o perguntar? Eu respondo. Porque tudo isto passou. Já deve ter fumado outro cigarro e não pagou nenhuma multa nem levou nenhum raspanete, seu menino mal comportado. Admiro-lhe a coragem, a destreza e a frieza mas deixe-me dizer-lhe que censuro as suas escolhas de vícios e de actividades lúdicas a serem executadas em aviões. Francamente, senhor Primeiro Ministro, com tantas coisas giras, e muito mais divertidas de desculpar, para se fazerem na casa de banho de um boeing 747…
 
 
Guilherme Fonseca    
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publicado por Guilherme Fonseca às 01:33
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