Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

#26 - "eu amo-te"

               Acabei de ver um homem na televisão a gritar para a câmara, a plenos pulmões, “Eu amo-te!” repetidas vezes, quase sem folgo. O homem estava bastante vermelho, como qualquer um de nós sentados na sanita em plena concentração, e estava a coxear de muletas para conseguir estar sempre no plano. Sempre, sempre a gritar. Visto assim, sem mais explicações, podia ser uma declaração de amor a uma pessoa amada. Mas não. Podia ser uma declaração de amor à sua mãe, que tanto sofreu para o alimentar e educar. Mas não. Podia ser ao patrão que, amigalhaço, lhe aumentou o ordenado agora antes do verão. Mas não. Gritava a plenos pulmões, na iminência de cair sobre a única perna boa e funcional, porque chegou a camioneta da selecção à Suiça. Amigos, começou a loucura.

            Basta ligar a televisão a qualquer momento, seja em que canal for, que provavelmente vão apanhar um repórter de “encher chouriços”, a entrevistar emigrantes sobre “como se sentem”. Na TVI até levam brinde, entre as entrevistas, a irmã do Cristiano Ronaldo canta e dança, portanto aproveitem. A loucura começou definitivamente. Horas de televisão que acompanham a selecção a cada movimento, a cada cuspidela, a cada coçadela. Depois daquele “coxo”, de que vos falei, apareceu um jornalista a descrever o jantar dos jogadores. "Dourada grelhada e pudim de caramelo". Porque raio é que eu preciso de saber o que eles vão jantar? Ou pior, porque raio é que é informação de última hora, que "as camas dos jogadores já estão feitas"?!
            Se virmos bem, esta loucura pela selecção é recente. Se se lembrarem do Euro 2000 não houve helicópteros em perseguições a alta velocidade atrás da camioneta “movida a vontade de vencer”. A partir desse Euro, e depois de se juntar o Scolari à família “tuga”, é que a comoção em volta dos nossos jogadores e dos seus aperitivos ao jantar aumentou desmedidamente. Apenas quando começamos a mostrar resultados, a ficar nos quatro, três ou até mesmo dois últimos lugares da tabela é que isto começou. Por isso e porque o Benfica tem andando mal, o que quer dizer que milhões de adeptos andam com “festejos” por usar, encaixotados no fundo do armário.
            Os jogadores ainda não fizeram nada e já têm legiões de adeptos fanáticos que lhes davam a vida se fosse preciso. Dois mil e quinhentos motards foram até à Suiça. Ver algum jogo? Não, “só acompanhar a selecção. Os jogos vêem-se na televisão!” A isto chama-se “fé”. É bonito de se ver, confesso, mas também é um pouco assustador. Uma total devoção, desmedida e eufórica, por um grupo de jogadores que ainda nem um ponto na fase de grupos tem? Pronto, já estou a vestir a pele de “Velho do Restelo”, mas se é isso que esta crónica me faz parecer, então que seja um daqueles velhos de cachecol, bagacinho e garganta rouca de tanto gritar, que foi numa mota até à Suiça, se faz favor.
            Tenho fé nos nossos jogadores, na nossa selecção, mas não consigo entrar nesta mentalidade de blocos informativos repetitivos e desnecessários. No entanto, consigo “compreender”, por algum esforço extra que isso me dê. Uma sondagem há uns tempos provou que o povo português vê o futebol como uma religião. Ámen. Se concordarem comigo que uma religião é aquilo que preenche a vaga “etérea” nas necessidades de ser humano que se sente “desapoiado”, então concordam com a sondagem. Eu sou ateu, e quando o digo, digo-o com a duplicidade de sentidos que a metáfora com a nova religião futebolística arrasta. Faço parte dos 48% dos portugueses que organizam a sua vida conforme os horários dos jogos de futebol (muitos sinais vermelhos já eu passei) mas estou longe de pertencer aos 50% que só se emocionam na vida com futebol, aos 53% que dizem que os seus heróis são jogadores de futebol ou ainda menos com os 35% que dizem que o futebol é a coisa mais importante da vida deles. O Nuno Gomes fazer parte do lote de coisas mais importantes da minha vida? Não me parece. Mas a piada disto tudo é que das pessoas que foram entrevistadas a percentagem que trocaria um jogo de futebol por sexo é ínfima. Aparentemente somos parvos mas não tanto.
            Vou estar colado à televisão para ver o Euro, sim senhor. Mas para mim futebol não é religião ou catarse, não é vício nem modo de vida, é desporto, é entretenimento. Resta acabar esta crónica com uma explicação simples. Porque é que eu não me importo assim tanto de ver isto na televisão, apesar dos excessos de tempo de antena? Porque se olharem para as imagens na vossa televisão, as pessoas estão a sorrir. Porque este "amor incondicional" faz um homem de muletas tentar correr atrás de uma câmara de televisão, gritando histérico, “eu amo-te, selecção!”.
 
            Guilherme Fonseca
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publicado por Guilherme Fonseca às 00:16
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2 comentários:
De tracey a 5 de Junho de 2008 às 19:33
HEY! mas quem é que disse que não sabes escrever? estás louco =) quem não consegue escrever estas coisas sou eu, por isso cito os outros :P
é verdade que é bom ver as pessoas a sorrir e tal, mas enerva-me que para outras coisas não tenham ânimo. tudo bem, já percebi que o povo português não é muito de cinema e cultura, às vezes trabalha tanto que não tem tempo para isso... mas acho espantoso como ano após anos, mesmo não ganhando nenhuma competição (ficamos no quase, é o karma de sempre em Portugal), as pessoas ainda parem TUDO o que estão a fazer para ver um jogo. na semana passada a manchete de sexta do público era sobre os trabalhadores do porto de lisboa que não iam trabalham na altura dos jogos do euro... bem, I rest my case...


De Pai a 6 de Junho de 2008 às 17:54
Boa !
Gostei, e muito.
Sabes que não sou fã de futebol, que o fanatismo me irrita e que perder tempo a ver se as camas dos jogadores já estão feitas é coisa que não faço. Nem me preocupo muito se a Nereida anda feliz ou não ( espero que a actual namorada do Cristiano Ronaldo se chama assim... )
"Mas a piada disto tudo é que das pessoas que foram entrevistadas a percentagem que trocaria um jogo de futebol por sexo é ínfima."
E sexo durante os jogos de futebol, com a televisão aos gritos ? Não só se marcam golos de cabeça inesperados como o prazer é duplo...
Viva Portugal !
Viva o Scolari e os jogadores todos !
Vivam as pessoas como tu que conseguem vibrar com o evento, mas não se perdem em fanatismos doentes :)
Abraço do teu 2º maior fã.


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