Quinta-feira, 12 de Junho de 2008

#27 - pandar

               Não sejamos hipócritas. Nesta época do nosso mundo, da nossa sociedade, com o clima a mudar rapidamente, em que as civilizações se deterioram, as pessoas se afastam cada vez mais da realidade em mundos irreais e impessoais, frios e virtuais, falemos daquilo que realmente importa para todos nós, falemos dos temas que nos tocam e nos fazem melhores seres humanos. Falemos sim dos problemas de reprodução dos pandas na china.

            Desculpem-me mas sinceramente é este o tema que me interessa esta semana. Querem saber de greves de pescadores? Ataques de camionistas a repórteres da Sic? Scolari confirmado no Chelsea? Top das mulheres mais “gostosas” dos jogadores do Euro? Tomem dois laxantes e comprem o “24 horas”. Aqui falamos da nossa fauna, de animais e de como estes têm problemas em reproduzir-se. Mas pandas, não é do guarda-redes Ricardo.
            A verdade é que este amistoso e “fofinho” (sim eu escrevi “fofinho”) animal não tem apoio psicológico face a este problema. Não tem comprimidos azuis. Não tem campanhas com o Nicolau Breyner contra a disfunção eréctil. Nem se este faltar à depilação nas costas. Se um panda tiver problemas em “pandar”, está completamente sozinho no mundo. Sendo “pandar” o termo técnico óbvio nesta conversa, será fácil de entender que existe um enorme problema de reprodução no mundo dos pandas. Este animal encontra-se em vias de extinção e métodos totalmente novos já se encontram em desenvolvimento para que estes vigorosos petizes voltem a serem “machos” em todos os sentidos da palavra.
            Mostrem compaixão. Primeiro que tudo eles estão em extinção, logo são cada vez menos. Imaginem que em Portugal já só sobram vocês e aquelas três raparigas “acneicas” que fazem caixa no Mini Preço? Não prezam a opção de escolha? Os pandas não a têm. Em segundo vem o aquecimento global. Parecendo que não o calor amolece o panda, e quando emprego um termo como “amolece” não o faço de ânimo leve. Não só já têm menos amigos para jogar à bola como menos pandas fêmea para mandar uns piropos, o que faz dele um preguiçoso cada vez mais profissional. A estagnação intelectual e a apoplexia motora ameaçam a sua vida sexual e isso magoa-o. O que fazemos nós? Mais peluches. O que fazem cientistas chineses? Ciência de “ponta”. Quero relembrar mais uma vez o meu cuidado com as expressões.
            Gostava de conhecer o chinês que se lembrou deste método de incitar à reprodução. Apertava-lhe a mão e depois limpava-a com lixívia. Porquê? Porque a ideia que este senhor teve foi nada mais, nada menos que a de filmar pandas a copularem para depois mostrar esses mesmos vídeos a outros pandas, menos “fulgurosos”, incutindo-lhes um pouco mais de “ânimo”. O que este chinês fez foi simplesmente criar um mercado totalmente novo de pornografia, de pandas para pandas.
            Sem termos de saltar mais parágrafos, algumas ideias nos saltam imediatamente à cabeça. Maior parte não se podem descrever numa crónica familiar como esta, mas outras podem ser discutidas com calma e pudor. Este método apresenta um problema enorme à partida. Tudo bem que o panda fica com vontade de “pandar”, mas o que acontecerá quando o senhor Panda perceber que a senhora Panda não vai fazer aquelas coisas que ele viu no filme? Parece-me bastante óbvio que este panda vai acabar como o seu congénere cientista e humano. Coleccionando vídeos, fechado algures com clinexes. Haverá ainda discriminação no mundo da sedução dos pandas? Os pandas mais esquisitos em termos de temática dos filmes terão filmografia ao seu gosto? Haverá limites de downloads? Os pandas com maiores anatomias ficaram nos melhores Zoo’s? Os outros com menores anatomias serão funcionários públicos? Aqueles ainda que virem mais filmes e praticarem menos terão crónicas humorísticas online? Tudo questões relevantes.
Não obstante, há algo que me preocupa e assusta um pouco mais. Sendo isto pornografia e nada mais, o que acontecerá quando nós humanos pusermos os olhos numa destas fitas? Acidentalmente, claro. Imaginem o seguinte cenário. Um rapaz dado a inalar substâncias apenas legais em Amesterdão, com algum tempo livre e o kanguru da Optimus, resolve viajar pela sua amada internet. Quando acaba o seu percurso por aquilo a que carinhosamente chama de “favoritos”, chega ao site que apenas pode ver quando a mãe saiu para comprar cebolas. Clica no “Sim, tenho mais de 18 anos” e vê que novos vídeos foram colocados para seu deleite. Imagino o seguinte telefonema para um amigo:
 
O tal rapaz das substâncias legais em Amsterdão
“Man, tas ai?”
 
O amigo
“Tou? Sim, man. Tou aqui.”
 
O tal rapaz das substâncias legais em Amsterdão
“Man, não vais acreditar no que eu descobri agora…”
 
O amigo
 “Por favor, diz-me que são mais fotos das cuecas da Sónia Araújo no Dança Comigo…”
 
O tal rapaz das substâncias legais em Amsterdão
 “ Esquece a soninha! Nem vais acreditar nisto! Encontrei um vídeo… Pá, o filme é brutal, tas a ver? Os gajos fazem imenso barulho... mas comem erva, man… e têem bueda pêlo!”
 
O amigo
 “Cala-te!! Não me digas que os bloquistas já se meteram na pornografia?”
 
 
 
Guilherme Fonseca
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publicado por Guilherme Fonseca às 00:05
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