Quinta-feira, 26 de Junho de 2008

#29 - interesses, menino

              Independentemente se os portugueses falam bem ou mal, constroem bem frases ou conjunturas gramáticas, é preciso dar-se os parabéns aos nossos antepassados “tugas” por duas coisas. Primeiro, as sobremesas de natal, que não têm nada haver com a conversa mas ficam sempre bem. E segundo pelas fantásticas expressões que nos deixaram para usarmos e abusarmos nos “dias que correm”. Eu vou explorar uma em particular, “nem que chovam canivetes abertos”.

            Gosto bastante da nossa língua, confesso. Não que seja um canibal devorador de aparelhos gustativos, mas gosto da maneira como falamos, das pequenas idiossincrasias, dos pequenos erros ou desvios, e até dos sotaques, querido Alberto João. No entanto há uma expressão em particular que não consigo perceber. No outro dia assisti a uma conversa no metro entre duas senhoras. Estavam as duas a desbocar no seu patrão, citando pedaços de uma conversa que parece ter sido animada entre uma delas e o respectivo. Descansem, parece que mantém o emprego. A meio da conversa ela virou-se para o patrão cheia de coragem e indignação e disse-lhe que “isso não interessava nem ao menino Jesus”. A minha cabeça fez um click que se ouviu três carruagens mais para sul.
Quem é este “menino Jesus”? Se estamos a discutir os interesses deste indivíduo convém saber quem ele é ao certo. É o do presépio? É só para “por tudo em pratos limpos”. Pode haver um “menino jesus” na penitenciária de Monsanto e eu não saber. O mundo das alcunhas é diverso. Já conheci um “gosma” e um “facadas”. O primeiro bem mais sociável que o segundo. Mas se fosse este de Monsanto o “menino Jesus” a quem “nem lhe interessa”, os interesses seriam ligeiramente diferentes, não? Talvez a este interesse sair da prisão e produzir mais cadáveres. Estamos portanto a lidar com uma criança que está nas “palhas estendido” e que só aparece para dizer olá uma vez por ano. Óptimo.
Este gajo é um “menino” há 2000 mil anos. Quais são os seus interesses? Um biberão? Uma mudança de fralda? Não fazer parte do lote de convidados do “Um, dois, três”? E qual é a relevância dele não ter interesse em alguma coisa? Ele é um líder de opinião no que toca ao interesse de um assunto? Se a senhora do metro disse ao seu patrão “isso nem interessa ao menino Jesus” é nítido que este menino não é muito selecto no que lhe interessa. Parece ter uma abertura de interesse de tal maneira oferecida que aquilo que o patrão estava a dizer é mesmo desinteressante. O que quer dizer que o “menino Jesus” é um indivíduo com baixos padrões de interesse e muito tempo livre. Queremos mesmo nós medir o nível interesse de algo por alguém deste tipo?
Porque não dizemos “isso não interessava ao José Mourinho”. Parece ser alguém bastante mais exigente e com padrões mais altos e claros. Dizer-se “isso não interessava nem ao menino Jesus” é manter-se a dúvida porque ele sendo tão pouco exigente pode sempre fazer isso caber na sua agenda e passa então a interessar-lhe. Com o Mourinho isso não aconteceria. Se não lhe interessar ele é firme e não deixa escapar nada que tenha um específico nível de interesse para si. Ele é especial, amigos. Passemos então a dizer “isso não interessaria ao José Mourinho”. A meu ver faz mais sentido e deixa mais claro o interesse da coisa.
Vão por mim, não confiem em alguém que 2000 mil anos depois ainda se auto intitula “menino”, porque ou é atrasado mental ou o nome é um nick para engatar rapariguinhas mais novas na Internet. Se vier escrito “menino_quente_jesus69” então, nem digo mais nada. Aliás tendo tanto interesse em tudo, nenhuma parece estar a salvo dos seus avanços. Usem o Mourinho nas vossas conversas. É muito mais íntegro, claro e transparente nos seus interesses, ainda é especial, e se falarem italiano ele até vai ter aulas especialmente para vos responder. Isto sim é um gajo interessante, a quem algo lhe interessar é um verdadeiro desafio.
Amiga do metro que teve coragem e testículos de levantar a voz ao seu patrão, espero ter sido claro. Use essa sua personalidade revigorante e entusiasta e renove as suas expressões. Dê-lhes mais atenção e carinho, elas merecem. Muitas estão datadas e precisam de ser renovadas. Não fique “à sombra da bananeira”, “não dê o dito por não dito” e comece a rir-se das coisas a “bandeiras despregadas”.
 
 
Guilherme Fonseca
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publicado por Guilherme Fonseca às 02:07
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1 comentário:
De tracey a 26 de Junho de 2008 às 20:08
adoro as tuas crónicas. e rir a bandeiras despregadas é a melhor expressão de sempre, eu imagino alguém a rir e a deitar pela boca aberta de tanto rir bandeiras enormes, todas prontas a hastear.
pronto, já se vê que não tenho a mesma piada que tu...


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