Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

#30 - um tempo

                O que é o “Verão” na verdade? Para a maior parte de nós, comuns mortais, é sinónimo de descanso, de férias, de respirar fundo de obrigações e de compromissos, altura de sair do nosso lugar no mundo e fugir de tudo e todos para longe, de caipirinha nas mãos. Para a menor parte é sinónimo de álcool, incêndios florestais e época de caça a inglesinhas pequeninas no Algarve. Mas se olharem em vossa volta verão que o prazer por esta altura do ano está sempre associada às mesmas duas pequenas secções da nossa vida: trabalho e vida amorosa. Como de trabalho já estamos todos fartos e não se escrevem crónicas humorísticas online, parece-me óbvio que vou falar da segunda.

            É no início desta altura veranil que, regra geral, duas distintas coisas começam a morrer. São elas Computadores portáteis e Relações amorosas. Não perguntem o porquê dos portáteis morrerem antes do verão, nem sei distinguir um “Proxy” dum “Embeded codex 3.47”, mas de namoros consigo falar. Tem menos termos técnicos e mais interactividade, o que torna a coisa mais simples. Hoje ao passear pela net reparei que começam a nascer pequenos avisos, pequenos arautos do que se irá passar em breve na vida dos portugueses. Em várias páginas surgem “termómetros reais e fidedignos” para se medir a “intensidade verdadeira da sua relação”, questionários sobre como “engatar estrangeiras em discotecas do sul” e entrevistas ao Zézé Camarinha sobre o seu novo livro. E sim, este livro existe. Todos estes esforços cibernéticos parecem então mostrar um fim de uma era na vida amorosa de quem vai de férias. No meio disto tudo há uma expressão solitária, e solidária com a época, que me faz confusão. De certeza que já a ouviram, o que deve ter sido mau sinal.
            Caso prático, comum e elucidativo: Um rapaz manda uma mensagem à sua namorada. Pede para se encontrarem e diz que precisam de falar, num tom sério e sem smiles sorridentes pelo meio da sms. Ela fica nervosa. Ele só fala num tom sério quando ela não o deixa ir ver a bola com os amigos ao café. A tensão cresce. As mãos dela tremem. Este aparentemente saudável casal encontra-se num café e estão ambos nervosos, impacientes e calados. Depois de suarem bastante e pedirem duas coca-colas com gelo as palavras, mais cedo ou mais tarde, vão sair da boca dele, e ela não vai gostar de ouvir: “Amor, acho que temos de dar um tempo”.
            Explique-me, por favor, quem já “deu tempos” na sua vida, o que é isto. O que significa na realidade “dar um tempo”? É oferecer um relógio? Têm uma prenda escondida com Swatch escrito por cima para oferecer? Pedir para “Dar um tempo” vem normalmente ligado às frases “estou confuso” e “não sei bem o que sinto neste momento”. Se estão confusos comprem um cão e se não sabem o que sentem nesse momento consultem ajuda psiquiátrica. Ou o Professor Karamba na secção dos classificados do “Destak”. “Dar um tempo” é um conceito parvo, desnecessário e usado por cobardes. Eu explico, não se enervem.
            Há alguma marca temporal definida para “dar um tempo”? Quando se pede para se dar um tempo vem com uma tabela de horários? Há uma meta para se voltarem a falar? “Amor, precisamos de dar um tempo e estive a ver a média europeia. Penso que duas semanas são o melhor no panorama actual”. Quando se dá um tempo formula-se um calendário para se voltar a falar? Ou é simplesmente um tempo afastados em que ”desculpa, mas quando me apetecer falar contigo outra vez, eu telefono. Ou secalhar mando mail, fica mais barato.” Sendo que o conceito de dar um tempo é só um embelezado e politicamente correcto “chega para lá que preciso de respirar” é pura e simplesmente hipocrisia e medo de assumir responsabilidades. É “renunciar à massa testicular”, para quem não percebeu.
            “Mais um bocadinho, mais… mais… pronto, estás longe o suficiente para eu conseguir respirar. Agora falamos quando me apetecer, ok? Adeus e tem uma boa vida.” Sabem que mais? Uma relação entre duas pessoas saudáveis e adultas precisa principalmente de duas coisas, que juntas até fazem o título de um livro, curiosamente. São elas “sensibilidade e bom senso”. Pedir para se dar um tempo é fazer arrastar um problema. É pegar no comando, por o DVD no pause e ir embora, na vã esperança de que eventualmente o Leitor de DVD se desligue sozinho. Não me venham dizer o contrário. Estão com alguém enquanto são felizes, enquanto esse tempo juntos não é uma obrigação e não precisam de uma promessa de férias separados e um “dar um tempo“ em anexo, para se sentirem bem. Tenham respeito por vocês e pela pessoa com quem estão. Acabar uma relação é como o dia da defesa nacional. Custa mas tem que ser.
Casais desse Portugal fora, respeitem-se, amem-se, dure o que durar e no final tenham a dignidade e respeito uns pelos outros de pôr um ponto final e um parágrafo quando querem mudar de rumo na vossa história. Não aproveitem o início do verão para acabar uma relação que já se arrasta debilmente numa trincheira. Mostrem até no último momento que a pessoa à vossa frente foi importante para vocês e façam o que é preciso. Acabo pedindo só mais uma coisa, a meus futuros encontros amorosos que possam estar a ler isto. Se alguma vez tiver a lata de vos pedir para me “darem um tempo”, abram um portátil nesta crónica e em seguida dêem-me com o aparelho na têmpora esquerda, repetidamente até eu parar de tremer. Só assim terão cumprido a dupla de mortes veranis. Morte declarada de uma Relação amorosa e de um computador portátil. Seja um Proxy o que for.
 
 
Guilherme Fonseca
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publicado por Guilherme Fonseca às 02:37
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4 comentários:
De Pai a 3 de Julho de 2008 às 10:35
escelente !
gostei particularmente da alegoria de por o DVD em pause e esperar que desligue sózinho.
acho que é a definição base da cobardia de desligar de vez, sem falsas esperanças que ninguém tem.
boa.

gosto quando me fazes rir a falar a sério.
as melhoras :)


De Pai a 3 de Julho de 2008 às 10:36
é excelente, não é escelente...
( que vergonha :P )


De Guilherme Fonseca a 3 de Julho de 2008 às 13:37
=)

Não te preocupes, pai! O teu erro só se camuflaria no meio dos meus... lol

Ficava em casa... =)

hug,
gui


De tracey a 3 de Julho de 2008 às 19:51
A ideia de "dar um tempo" foi fundada pelo medo de acabar mas acabou por dar azo a uma data de coisas que a tornam mesmo grave como trair no tempo e depois dizer que "não conta", ou pedir o tempo para trair e depois voltar dizendo que não valeu a pena, claro, depois de ter aproveitado...
Mais uma vez, gosto mesmo do que escreves. Simples e directo.
=) *


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