Quinta-feira, 17 de Julho de 2008

#32 - bad boys

               Como já devo ter dito aqui em textos anteriores, sou estudante de cinema. Na verdade já não sou “estudante” porque me licenciei há pouco tempo. Desculpem, não se diz “licenciado em cinema”. Diz-se “rapaz que corta o bilhete ao meio e diz para que lado fica a sala do vosso filme”. Mas como no meu passado mais presente estiveram várias curtas-metragens e alguns orçamentos de produção, quero falar-vos de quanto custa fazer um “disparo” num filme. Para terem uma pequena noção, falei com várias empresas de efeitos especiais portuguesas e em média um tiro em cinema (sem impacto, o que quer dizer que não há nem pontaria, nem saquetas de sangue a explodirem para ninguém) custa à volta de 180 euros. Como existem vários takes por plano, o orçamento de três tiros sem nenhum impacto ficou por 600 euros, sem descontos. Para que é que isto interessa? Porque se eu soubesse disto mais cedo não teria ido a empresas de efeitos especiais para filmar disparos. Tinha ido ao Bairro da Fonte filmar a curta.

            O senso comum diz-nos que o “normal confronto social” vai de discussões de trânsito a empurrões numa discoteca. Até já aconteceu com certeza também a quem não anda de Táxi em Lisboa ou vai sair à Kadoc. Agora, novidade para nós, são mais de cinquenta pessoas armadas no meio da via pública em Loures, aos tiros de caçadeira. Como é que passamos de um patamar para o outro? Não saltámos alguns degraus? É que no Iraque parece-me bastante normal que se tome o café da manhã admirando clarões de mísseis. Em Loures aquilo que se admira de manhã são prédios cinzentos e centros comerciais. Não são milícias armadas a fazer "tiro ao boneco". Por "boneco" entenda-se: outro ser humano.
            A pergunta mantém-se. Como é que evoluímos de uns pacatos “tugas” admiradores de saldos para possíveis alvos de uma espingarda na “rotunda em frente à farmácia do senhor Zé”? Onde é que a evolução se deu? É que para o espectador comum de noticiários não houve um crescendo para esta situação. Acendemos a televisão num dia normal e temos mais uma notícia de carjacking. No dia seguinte vimos a notícia de uma guerra civil com direito a vídeo incluído. (HD apenas disponível nas televisões preparadas para o efeito.) Isto devia ter sido em escalada, evolutivo, crescente. Por exemplo, na primeira semana uns tiros num banco. Nada de grave. Na semana seguinte, uns reféns numa repartição de finanças da Bobadela. Morriam dois, só para se mostrar serviço. Na semana seguinte uma bomba de gás no parlamento e depois disso, sim, seria fácil aceitar um “Bad Boys III” em Loures.
            O estranho é que um domingo pacato na vida de duas “minorias” instaladas em Loures leva a esta espiral de destruição e quem anda mais assustado somos nós “a maioria”, totais espectadores deste filme, que nem sabemos disparar uma arma. Vendo bem, ate é bastante normal que no meio destas notícias todas nós é que tenhamos medo. Porque não sabíamos que era possível duas etnias diferentes odiarem-se tanto. Não estamos habituados a confrontos deste tamanho que não tenham pessoas vestidas de azul de um lado e de vermelho do outro, à porta de um estádio. É engraçado imaginar os tele-espectadores da TVI a correr, confusos, de um lado para o outro a gritar “It’s a cook book! IT’S A COOK BOOK!”. Mas em português. E não esta frase da Twilight Zone. Pronto, só em pânico.
            Várias explicações saem a público sobre o que causou o tiroteio. Picardias anteriores. Casos amorosos. Negócios de droga. Mas aquilo que nós vemos na televisão repete-se. Em loop vê-se a imagem de várias pessoas, no meio da rua, empunhando armas disparando contra tudo e todos. Querem saber o que é mesmo mais engraçado no fim deste caso todo? Ninguém, repito, ninguém, foi alvejado. Ninguém, levou nenhum tiro. Do meio dos 50 envolvidos no tiroteio não houve feridos a não ser uma mulher que abriu um sobrolho. E não é preciso uma troca de tiros em plena rua para abrir um sobrolho. Uma porta de um armário costuma fazer esse serviço por nós. Que é que ela vai dizer aos amigos? Esta mulher esteve presente num tiroteio no meio de Loures, que envolveu 50 pessoas de diferentes etnias, e tem um sobrolho aberto para mostrar. Eu tinha vergonha. Era a falta de um membrozinho ou nada.
            Mas fora a má pontaria destes senhores fica a ideia de que há demasiadas armas e demasiadas discussões nas nossas ruas. Demasiada agressividade e tempo livre. Demasiadas questões onde não deveriam existir. Demasiados problemas que não deveriam existir. Mesmo tendo provas agora de que a probabilidade de levar um tiro noutro tiroteio é pequena, as famílias ciganas envolvidas no conflito querem novas casas. Não percebo esta decisão, porque isso sim é perigoso. Dizem que não querem voltar a morar no Bairro da Fonte. Amigos, fiquem onde estão. Ouvi dizer que esses novos apartamentos têm lá armários.
 
 
            Guilherme Fonseca
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publicado por Guilherme Fonseca às 00:06
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