Quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

#2.1 re-entrando

Era meio de Agosto e estava na piscina da casa de um amigo quando ouvi a verdade, nua e crua, dita sem preliminares. Estávamos três a fazer valer o clima, eu esparramado na borda da água, outro à deriva num colchão flutuante e o último numa espreguiçadeira, quando se quebrou o silêncio. “Guilherme, já reparas-te que estás desempregado, sem namorada e sem dinheiro?”. E assim começa Setembro.

Primeiro ponto importante é que tenho de mudar de amigos. Sem dúvida. Os sinais são evidentes e já vai mais que na hora. O segundo ponto importante é que o apelidado por mim com carinho de “grande filho da mãe”, tem razão. Setembro tem que ser altura de voltar a pousar os pés no chão, de desfazer malas, tomar um banho de imersão e retirar talões de saldo do Multibanco enquanto se enxugam as lágrimas. Ele fez isso por mim.

A verdade é que o acabar de férias para o cidadão comum é tão mau como acabar de campeonato para o Benfiquistas. Voltar aos hábito, rotinas, ao cedo da manhã, ao patrão e às filas. Mas se pensarem bem, não é assim tão diferente das férias. Não estão horas no engarrafamento para um Multibanco na marina de Vilamoura? Não estão sempre a queixar-se dos preços dos gelados na praia? Não há sempre o medo de ser apanhado pela Polícia com 1.2g/a no sangue? Bem vistas as coisas, nunca temos férias. Acabamos as férias a precisar de férias das férias. Vou escrever “férias” mais uma vez só para ficar número ímpar.

“ (...)desempregado, sem namorada e sem dinheiro?”. Nem tudo aqui é verdade, diga-se. Desempregado estou, mas prefiro chamar-lhe “Licenciado em Argumento Cinematográfico à procura de Clube de Vídeo que me aceite”. É mais pomposo. No fundo percebo os “Arrumadores de Carros” que gostam de ser chamados de “Reorganizadores e Distribuidores do Espaço Automóvel Urbano”. Há quem se intitule “Engenheiro” e nem seja, portanto mais vale um nome pomposo assim do que nenhum.

“Sem namorada” é verdade mas isto não é como ser um professor sem colocação. Não é um estado crónico nem de latência exagerada. “Vem e vai”, como os ex-benfiquistas huruguaios com alcunha de legume de refogado culinário. E “sem dinheiro” é mentira. Graças a deus não sou parvo e sei-me precaver. Já sei jogar no Euro-milhões.

            No entanto, tenho de agradecer a este amigo que me fez este agradável “reality check”. Obrigado. Serve isto tudo para vos dizer que, mesmo através de um amigo, devem aproveitar estes restantes diazinhos de férias para voltarem ao activo. Para voltarem a dar corda aos motores. Chamem-lhe pré-temporada, se tiverem gostado da conversa futebolística, mas está na altura do ano de tirar a areia dos pés. Ou isso ou trocar o apelido para Pedroso e processar o Estado Português. Ainda acabam ricos.

 

            Inaugurando a segunda série de crónicas,

            Guilherme Fonseca   

 

  

tags:
publicado por Guilherme Fonseca às 15:24
link do post | comentar | favorito

.O Autor

Todas as Quintas o humorista Guilherme Fonseca publica um novo texto!

.textos recentes

. #2.42 - Ponto final. Pará...

. #2.41 - abstenho-me

. #2.40 - game on!

. #2.39 - let's talk about ...

. #2.38 - a angústia dos ch...

. #2.37 - grandes porcos

. #2.36 - análises aos exam...

. #2.35 - orgulhosamente ac...

. #2.34 - primeiro dia

. #2.33 - treme treme

.arquivos

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

.links

.leituras

Contador de visitas